Jardim 18 Julho, 2008
Hoje em dia, comenta-se que somos da geração do “agora”, queremos bens não duráveis e que sirvam único e exclusivamente para o nosso prazer imediato. É o fast food em forma de vida.
Falamos que tal loja só faz aquilo para vender, mas mesmo assim, quando tem uma promoção, não agüentamos e vamos lá “checar”. Mesmo que tais itens da promoção não tenham a menor utilidade na nossa vida.É tudo pra amanhã. Só amanhã. E por ser algo grande, da sociedade onde vivemos, não se restringe aos bens materiais mais simples. Embarcamos na loucura e agimos assim uns com os outros.Fingimos não amar para não sofrer. E sofremos por não poder amar. E quando, finalmente nos abrimos e resolvemos amar, a pessoa em questão tem que ser rápida, queremos ser retribuidos na hora. Em seguida.Nos esquecemos de esperar. Daquele frio na barriga. Dos ciclos.
Também temos aqueles que querem entrar na moda de “salvar o mundo” e saem por aí dizendo que são ecologicamente corretos, que não usam sacolinhas de plástico do supermercado e que fazem tudo isso pensando no bem estar do meio ambiente, que nós, durante gerações, usamos e abusamos. Mas também querem ver resultados imediatos. E, se não têm uma convicção forte em relação ao que estão fazendo, se esquecem e voltam à rotina, que requer muito menos atenção e cuidado. Sabem tudo sobre como ser mais consciente, mas é muito cansativo.E volto a dizer, isso se reflete nos relacionamentos.É muito cansativo manter um relacionamento ecologicamente correto (se é que isso existe), que não polua a nossa vida e que preserve o nosso bem estar. Sempre requer atenção e cuidado.
Observando o meu jardim, (já comentado aqui/) pensei nesses dois assuntos. Ouvi através do silêncio da mãe Terra, que tudo precisa de tempo, cuidado, atenção e respeito. Sempre. Não só nos dias úteis.
Eu molho, cada planta, todo dia (aqui é bem seco e quente). Eu retiro cada folha seca. Eu vejo uma mini abobrinha se formar. Eu tento adivinhar o broto que vem de sair da terra. Eu fico maravilhada com a trepadeira que se enrrosca em tudo quanto é parte. Todo dia.Eu separo o lixo orgânico para fazer compostagem e nutrir a terra, como se fizesse comida pra ela. Eu pego um raminho do alecrim e coloco no peixe, que nutre todos da casa.
Percebi que, mesmo quem não é tão fast food, vai ao supermercado e compra um quilo de cenoura, e não tem a mínima noção do quão fast food isso é.
As cenouras que eu plantei na terra em Janeiro ainda estão lá, crescendo. E eu tenho que cuidar delas, se não murcham e morrem. Todo dia.
Olha o quanto é rápido comprar um cenoura e levar pra casa.
Vi que ser ecologicamente correto, pelo menos a meu ver, não tem nada a ver com salvar o planeta. Tem a ver com resgatarmos o tempo e o cuidado com nós mesmos.
Não adianta de nada parar de jogar lixo no rio se você não entende porquê isso é errado. Não adianta querer que tudo mude, de uma hora pra outra, só porque você resolveu ir de bike pro trabalho. Se você realmente sabe o que está fazendo e porque, vai saber esperar.Esperar para ver brotar aquilo que você plantou.
Queremos ver o mundo mudar, mas queremos que isso aconteça agora. E não vai acontecer. E se acontecer, provavelmente, você vai estar tão ocupado pensando no prazer que você pode ter em comprar “aquele” laptop, que nem vai se dar conta.
Ok,ok. E quem presta atenção? Eu sei que não sou a única a cultivar um jardim, mesmo que sejam jardins diferentes. Sei que tem pessoas, que enxergam detalhes na multidão.Eu sei, eu sinto.E que cada vez mais, redescobrem os ciclos naturais e entram em harmonia.
No jardim dos relacionamentos, nem sempre estamos dispostos a esperar por meses para ver a verdura amadurecer e dar frutos, preferimos ir ao supermercado. Preferimos algo que seja simples e eficiente. Quando acabar, é só ir ao supermercado de novo. Se tivéssemos que cultivar tudo, perderíamos muito tempo.
Ou não.
É tão bonito ver criar raízes, ver crescer, molhar e colher. Em relacionamentos, temos que cuidar do jardim do outro para que ele também cuide do nosso, sem esquecer do nosso próprio , e isso torna as coisas mais complexas. Mas se tivéssemos um pouco mais de tempo e cuidado, se cuidássemos uns dos outros como alguém que cuida de um jardim, veríamos belas flores nascerem e entenderíamos porque o tempo passa rápido hoje em dia. Veríamos os ciclos naturais surgirem em nós mesmos.Veríamos a beleza de ser quem somos.
PS-Acabei de tirar esta foto, ao lado do raminho de salsinha e do pé de abóbora que estão crescendo. Agora está bem escuro no jardim, eu coloquei a máquina na terra e deixei a exposição em 20 segundos (isso em fotografia é bastante, normalmente (com luz) não se usa nem meio segundo). E não é fácil ficar míseros 20 segundo na mesma posição.








































































