O primeiro mês

Hoje eu vou tentar descrever um pouco sobre o primeiro mês de nascimento do meu segundo filho, o Aldebaran. Este post era para ter sido publicado lá em julho de 2013, mas, depois de ler o texto, você vai entender porque ele só foi terminado e publicado hoje.
Ele nasceu de parto domiciliar, no dia 14 de Maio/2013, se quiser, leia o relato aqui:

Achei interessante escrever sobre este primeiro mês pois, assim como várias outras coisas que envolvem o universo da maternagem, a maioria das mulheres não fala sobre isso, a sociedade finge que entende, e quem ta passando pelo momento se sente a mais desprezível e incompreendida criatura. Saiba que, você, que está nos primeiros meses de nascimento de seu bebê, não está sozinha. Somos uma legião de solitárias surtadas.

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Só para esclarecer, nesta gravidez e parto, eu estive muito mais ativa, empoderada (com o poder) de meu corpo e aberta ao aprofundamento de sentimentos, o que, eu imagino, tenha permitido que eu entrasse em contato com esse “outro” lado da maternagem. E ter tido um parto normal, onde a recuperação é a jato, fez com que eu me sentisse mais deslocada ainda. Vou explicar melhor.

Quando um bebê nasce, mesmo que seja o segundo, o primeiro, o décimo, nasce também uma nova mãe. O processo é longo e se repete a cada gravidez, você engravida e vai descendo pro fundo do oceano de emoções e mistérios. Quando você chega ao ponto máximo de profundidade, onde tudo está obscuro, tudo é lento, simbólico e denso ele nasce. E conforme os meses vão passando, você vai subindo de volta à superfície. Mas veja bem, você foi bem fundo, pra voltar é um longo e escuro caminho, não ache que vai ser fácil ou rápido. Talvez se falássemos sobre isso, se fôssemos preparadas e respeitadas neste momento, talvez ( eu disse talvez) o momento fosse mais tranquilo. Mas não é. Aquela ansiedade pro nascimento do bebê envolvia muito mais do que o simples “quero muito ver a carinha dele”, envolvia uma vontade de ter seu corpo de volta, de ter suas atividades recuperadas, de ter uma rotina “normal”, de poder andar um dia todo e não se sentir como se tivesse feito uma maratona de São Silvestre, de poder se sentir atraente e gostosa novamente, enfim, sabemos, mesmo que no fundo, que a gravidez, por mais linda e mágica que seja, cansa. Até a mais saudável das grávidas. E não tem nada de errado nisso.

Bom, aí o bebê nasce, e você sente aquele alívio, a rotina muda mas… a gravidez meio que continua (para o nosso desespero), pois embora o cordão umbilical físico tenha sido cortado, o emocional e simbólico está a todo o vapor. Isso sem falar na loucura hormonal.  Ainda mais se você, assim como eu, não mora com familiares (aqui em casa sou eu, meu marido e minha filha), está amamentando em livre demanda, faz cama compartilhada, é “adepta” da criação com apego, tem gato, cachorro, trabalha em casa e por conta, etc.

Você se adequa ao ritmo do pequeno, tenta entender seu choro, tenta acalmá-lo, tenta comer, tenta se acalmar, tenta tomar banho, tenta, tenta, tenta… e parece que tá tudo errado. Isso sem falar no básico, que é dormir conforme o sono do bebê , ou seja, picadinho. Tem noites que ele dorme 3h, outras 4h, outras nada. E sempre comentam: ah, aproveita quando ele estiver dormindo durante o dia e dorme também. Mas gente, eu já não estou aproveitando nada, e ainda vou dormir quando ele dorme, durante o dia? Eu quero conversar, ver um filme, comer, tomar banho…tem tanta coisa.

Mas o sono bate, e muitas vezes eu vou MESMO dormir com ele em horários nada convencionais. E ai você percebe que não tem mais momentos de “não-mãe”. Aí você pensa que é assim mesmo, uai, você vai SIM ser mãe pro resto da vida, mas nestes primeiros meses, é diferente. E essa é outra coisa que nunca nos disseram: – Você também está engatinhando. Aprendendo a lidar com essa nova vida, a sua e a dele. E sabe como tudo isso vai se resolver? Com o nosso amigo, o Tempo .
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O tempo nos ensina a entender os choros, a saber quando devemos ouvir nossa intuição, quando devemos calar pensamentos, quando simplesmente aceitamos que não somos donas da verdade e que sim, as vezes erramos, as vezes acertamos, mas sempre abertas a aprender.

E temos também um outro aliado nesse momento, aquele tímido na nossa sociedade: O Colo. E não digo qualquer colo não, estou falando daquele colo que não julga, que ouve, que acolhe, que aquece e enche nosso olhar de esperança. Esse colo eu aprendi dando. Aprendi o quanto dá-lo, sem dó nem piedade, salva dias, olhares e famílias. Aprendi até a recebê-lo. Pois parece muito fácil “receber colo”, mas lhe digo, não fomos ensinados a isso, e acredito que seja muito, mas muito difícil mesmo nos abrirmos a tal ponto de receber um colo. Mais do que ofertar. E ter aprendido a receber um chamego em forma de palavras foi o que salvou minha maternidade, e salva até hoje.

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Me re-unir a outras mães, que assim como eu, recebem e dão colo, conversam por horas a fio sobre um assunto sem fim, ficam escrevendo palavras carinhosas pelo teclado ridiculo de um smartphone, deixam o tempo livre de mãe para ir na tua casa levar um bolo,  que te dizem:
-me telefona, por favor
e você responde:
-mas eu vou ficar só chorando ao telefone

e ela responde um belo:
-tudo bem, liga mesmo assim.

Também aprendi a criar com o tempo que tenho. Sim, criar, seja cuidar de uma hortinha no quintal, seja fazer bolo, ou bichinhos de feltro para dar para alguém. Me ocupar com atividades criativas e que eu posso, efetivamente, fazer, me trouxe muita satisfação e tranquilizou minha gana por “precisar fazer algo”. A arte me chamou de volta, e quando tenho um tempinho, faço algo. Mas nada com controle de tempo, qualidade ou quantidade. Tudo livre e solto. Faço na hora que rola e pronto.

E sabem do que mais, não nos preparamos como deveria para estes momentos. Somos jogadas num abismo emocional, e muitas vezes sozinhas, mas ninguém nos ensinou na escola a sermos mães, a lidarmos com esse escuro, a ativarmos nossas intuições e lidar com o selvagem, pois é ele quem se apresenta. Me vejo leoa amamentando um leãozinho, mas meio perdida, do tipo “uau, sou um ser selvagem? O que faz essa garra aqui? Nossa, é afiadinha!”. Raramente nos guiam naturalmente por esses caminhos, aí o que acontece? Nos perdemos, claro. Mas até isso, faz parte. Garanto que com minha filha já não será assim. Saí do torpor do senso comum e resolvi enfrentar a tempestade sem guarda-chuva, e surpresa, é uma delicia, mas assusta no começo.

É assim que caminhamos neste momento de nossas vidas. E cá entre nós, estou amando.
(na foto, eu e meus filhos num dia qualquer que conseguimos sair e ir à cachoeira)

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