Sobre meu corpo de mãe

Estes dias fui convidada pela querida Ilze Ferreira (fotógrafa) para participar do seu projeto fotográfico “Mulheres Maternas do Interior”, onde através de ensaios de nu ela traz à tona um discussão muito válida: -como é nossa relação com nosso corpo pós gravidez?
Eu adorei posar para ela e estou aguardando ansiosa pelos outros ensaios e exposições, torcendo aqui para que seja um sucesso, pois acredito que temos que romper estereótipos, preconceitos e medos. Que sejamos felizes e lindas, mães, magras, gordas ou filhas.
Aqui algumas fotos (onde poso com meus 2 filhos), e meu relato:

“Como mulheres, somos ensinadas a sermos minúsculas. A ter corpos pequenos, a nunca sermos imponentes. O ideal de nosso gênero é [sermos] magras e infantis, sem pelos e delicadas. Somos definidas por nossos corpos; definidas pelo controle que temos sobre eles. Somos ensinadas a sermos obcecadas com nossas fisicalidades e repulsivas por nossos desejos e inteligências. Somos ensinadas a andarmos com medo nas ruas tarde da noite. Seguramos nossas chaves entre nossos dedos perfeitamente cuidados, andando graciosamente como um bebê antílope numa horda de leões. [Somos ensinadas] que nossa virgindade define nosso caráter. Que sou uma vadia frígida se não trepar com ele, e uma puta suja se o fizer.”
— Michelle K., “The Truth About Growing Up A Woman” (tradução livre)

Nathalie Gingold: – Esta citação vem de encontro com o que sinto hoje em dia em relação ao meu corpo. Sinto ele cada vez mais livre de qualquer padrão, de qualquer marca ou insinuação.
Sempre me disseram “como” o corpo de uma mãe devia ser, como devia se parecer, como era o certo, como era o errado; Até a maneira de se vestir de uma mãe me ensinaram. E ai eu fui lá e tive meus filhos, meus dois filhos, frutos de paixão, frutos de mudanças e em cada um, uma barreira rompida. Minha primeira filha, a Sophia, foi retirada de mim através de uma cirurgia abdominal, sem necessidade (diga-se de passagem), mas que, na época eu acreditava ser o melhor. A dor foi muito além dos músculos que me foram cortados, fui cortada da possibilidade de parir minha cria, de dar a luz, pois, apesar de parecer radical, cesárea pra mim não é parto, é cirurgia. E, se ainda fosse necessária a dor ficaria restrita à cicatriz. Mas não foi. E eu me reergui, cheguei ao fundo da dor que sentia e comecei a subir, e cada vez mais, aprender sobre meu corpo, sobre o parto, sobre essa forma cheia de curvas, pelos, gordura, ossos, hormônios e calor. Meu segundo filho seria parido por mim, acolhido com amor na hora do nascimento, e a determinação de aprender sobre esse ritual tão secreto chamado parto me fez ter meu pequeno em casa. E foi mágico. Na verdade, creio que superei não só a dor da cirurgia, superei a mim mesma, superei as expectativas de uma sociedade inteira que sempre me disse: – você não aguenta, você é fraca, você é feia, você é estranha, você não entende nada do teu corpo, você tem medo, você não tem o corpo perfeito, você precisa ser igual. Superei esses conceitos e fui atrás de aprender a olhar para mim mesma, com olhos sinceros e amorosos. Com carinho acolhi não só a meus filhos, acolhi a mim mesma; me abracei, me acariciei, me deixei livre.
Hoje, sou o que sou. Ora corpo, ora alma. Sempre em frente. Muito orgulhosa de ser quem sou, de ter o corpo que tenho, de ter filhos, de ter prazer, de ser eu, assim, sem mais.
Venho para desconstruir a ideia de que “temos” que ser alguma maneira que não a nossa.

Obrigada Ilze, pela oportunidade de participar desta transformação, é de mulheres como você que o mundo precisa. Mulheres que seguem, que mesmo com dor, mesmo calejadas, se erguem e dão a mão àquelas que estão ao lado.
Irmãzinha Ilze, gratidão querida..

“O remédio está em obter cuidados de mãe para nossa própria mãe interna. Isso se obtém com mulheres reais no mundo objetivo que sejam mais velhas, mais sábias e que, de preferência, tenham sido temperadas como o aço. Elas se tornaram calejadas por terem passado por tudo o que passaram. Independente do custo, mesmo agora, seus olhos vêem, seus ouvidos ouvem, suas línguas falam, e elas são gentis.
(…) Nossos relacionamentos com las todas madres, as muitas mães, serão com maior probabilidade relacionamentos permanentes, pois nunca passamos da idade de necessitar de orientação e conselho, e isso também não deveria ocorrer, a partir do ponto de vista da profunda vida criativa das mulheres.
Os relacionamentos entre mulheres, sejam elas da mesma família de sangue ou almas gêmeas, seja o relacionamento entre analista e analisando, entre mestre e aprendiz, ou entre espíritos afins, são todos relacionamentos de afinidade da maior importância.”

Clarissa Pinkola Estes (do livro “mulheres que correm com os lobos”)

 

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