Sobre a dor de parir

Se tem uma pergunta que escuto muito é :
– Mas parir, dói?

Minhas respostas variam muito em palavras, mas sempre enfatizo: -Sim, dói, embora a dor seja relativa.
Pois nascer dói, e vamos ser sinceras, dói de qualquer jeito, se for normal ou se for através de uma cesárea. Dói pois temos que quebrar a casca e brotar. Se a planta não quebra a casquinha, ela nunca vira uma árvore.

A dor da cesárea pode ser sentida por conta de ser uma cirurgia de grande porte, muito invasiva, onde, vamos la:
“Após a anestesia é feita uma incisão. A incisão é horizontal e atinge três planos: a pele, a tela subcutânea, que é a camada de gordura e a fáscia do músculo reto abdominal, que é uma membrana que reveste o músculo. Em seguida, o cirurgia altera a posição de incisão e faz um corte e divulsiona (afasta), os músculos reto abdominal, em sua porção central, local conhecido como linha alba, que é uma fusão de tendões, pouco irrigado, que não sangra, porem que apresenta cicatrização demorada. Vencendo este plano, o cirurgia corta também o peritônio, que reveste os órgão abdominais e visualiza o útero, que é aberto e o bebê, bem como a placenta são removidos.”
O pós operatório é todo sentido, pois a tal “cesárea que não dói” é por você estar cheio de anestesia, mas a anestesia passa. E remédios comuns para a dor são fraquinhos comparados a dor do corte. Até tossir dói.

A dor do parto normal é por conta das contrações, da movimentação pelvica para a descida do bebê e depois da abertura para passagem dele pelo canal vaginal. E depois que nasce, pluft, acabou! Mesmo com lacerações, as dores são bem suaves e melhoram numa média de uma semana.

Mas vamos lá, disso, a maioria já sabe. certo?

O que ninguém fala é que o que dói mesmo é o desrespeito pela mulher em trabalho de parto. é dessa dor que muitas mulheres na média de 40 – 60 (nossas mães) falam.
É a indiferença no olhar. É a frieza do centro obstétrico, que se caracteriza não só pelo ar condicionado, mas principalmente pela maneira como tratam esta mulher. Não estendem a mão sequer para ela poder ir para a maca, imaginem para acolher. Forçam a mulher a ficar numa posição desconfortável por horas a fio, e se ela reclamar, vem uma ameaça logo em seguida. E ameaças não faltam. Ameaças disfarçadas de procedimentos necessários e de sabedoria. Ameaças disfarçadas de profissionalismo:
“Olha, você não está fazendo a força certa, vai querer ficar nessa posição até que horas? Você só vai sair daí quando este bebê nascer, então é melhor começar a colaborar”

“Já não pedi para você segurar no lugar certo? É ali, naquele ganchinho de metal. Você realmente não quer ajudar, ninguém aqui vai parir por você, viu, você está sozinha nessa”

“Vai ficar gritando? Vai sair com a garganta toda doida e não vai conseguir fazer esse bebê nascer”

“Ta tremendo porque?”

“Com esse show todo que você ta dando, agora vai me pedir uma cesárea? Não acredito que você fez tudo isso por nada. Tem até doula e vai pedir uma cesárea. Olha, é pacabá. Bom, é isso que você quer (parturiente chorando e implorando por uma cesárea, com bebê quase coroando)? Então vamos lá, real indicação de cesárea, a paciente pediu.”

Isso é dor. Isso é sofrimento. E isso se chama violência obstétrica. E isso aconteceu em Rio Preto, em São Paulo, em Salvador, em Belém, não importa a cidade, acontece todos os dias, a cada 4 partos um vem recheado dessa mistura. E deve ter acontecido hoje, ontem e vai acontecer amanhã.


Ninguém merece passar por isso. Ninguém. Nem estes mesmos profissionais insensíveis que falaram e fizeram tudo isso.
Que um parto dói, disso ninguém duvida, mas quando é um parto com respeito, com amor e acolhimento, a dor ganha um novo significado, ela faz parte de um processo necessário e consciente dessa mulher.
Quando a mulher passa por isso que descrevi acima a dor também ganha um novo patamar, onde a mulher sente como se tivesse sido abusada, com todos olhando, e por várias pessoas. Onde seu corpo é falho. Onde sua voz é abafada e inútil. Onde qualquer esforço é inútil.

A dor de parir vira trauma.

Aqui um documentário que, apesar do áudio, é maravilhoso:

Não me cansarei de lutar, como mulher, como doula, como mãe.
Não me cansarei de repetir: “busquem uma equipe humanizada”, não fiquem a mercê, não contem com a sorte, não percam seus partos!
Pois seus corpos são saudáveis e gostamos de parir.

Aqui um projeto lindíssimo sobre o assunto:

“Uma em cada quatro mulheres brasileiras que deram a luz em hospitais públicos ou privados relatam algum tipo de agressão durante o parto”. É o que aponta a pesquisa Mulheres Brasileiras nos Espaços Público e Privado, feita pela Fundação Perseu Abramo em parceria com o SESC, em 2011.

1:4 é um projeto fotográfico que busca materializar as marcas invisíveis deixadas por esse tipo de violência e traz à luz uma reflexão sobre a condição do nascimento no Brasil e as intervenções desnecessárias que ocorrem no momento do parto.

No momento, a produção de fotos para o Projeto está pausada.

Para ver outras imagens produzidas, visite a página do Projeto 1:4 no Facebook, que atualmente é o principal canal de comunicação utilizado pelo Projeto :www.facebook.com/projeto1em4. ”

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