Nascimento de Laura

Precisei de 45 horas pra parir a Laura e 6 meses pra parir esse relato.

Não foi nem de perto o que eu planejei pro nascimento da minha filha mas foi exatamente o que eu precisava viver pra crescer espiritualmente.
Primeiro vou me apresentar pra vocês entenderem as mudanças que ocorreram.Tenho 29 anos de vida, e fui criada pro mundo, pra ser forte, não demonstrar sofrimento, medo ou fraqueza. Não fui criada com luxo, mas era (talvez ainda seja um pouco) nariz em pé, desde sempre disse que minha filha não receberia visitas de estranhos nos primeiros dias, não iria pro colo de qualquer um, e decorei a casa de cor de rosa pra chegada da fêmea que estava vindo. Planejei o penteado do parto (domiciliar) e estaria maquiada porque queria fotos lindas. Criei um parto plasticamente perfeito na minha cabeça.
Tenho total aversão a hospitais, morro de medo de cirurgias, então cesárea não seria uma opção. Estava com meu marido a 10 anos e desejamos a gravidez. Me vi gravida com apenas 4 semanas e escolhi no caderninho do convenio uma GO fofíssima pra me assistir e desde o início ela era super a favor do PN.
Quando eu entrei no 5º mês de gestação, veio finalmente o valor para o PN e os poréns, que eram muitos. Fiquei muito abalada e vi meu tão sonhado PN indo por água a baixo. Comecei a pesquisar por relatos até que encontrei o GAIA. Fui a um encontro com meu marido pra conseguir indicação de GOs e saí de lá acolhida e instruída sobre PD e criação com apego. Nesse encontro conheci a Talita, a Nath e a Naiara, que também estava gestando o João. Depois de muito pesquisar chegamos a Lucélia, já com quase 7 meses de gestação, mas nos me encheu de segurança e amadurecemos o PD. Depois de muita procura veio a Amélie com sua doçura e delicadeza. E com a possibilidade de ser doulada, escolhi a Nath, porque desde o primeiro encontro senti seu amor de mãe. Estava com a equipe completa, era só aguardar.
Mas vamos a quem sou eu.
thais e cleriston

No dia 11 de outubro, sábado, fui a um encontro do Gaia, e fiz a pintura de barriga mágica, feita pela Nath, pois segundo meu marido (adivinho rs), a Laura só chegaria depois da mandala.
mandala Thais
E foi assim que aconteceu, lá pelas 3h da manhã, com 39 semanas e 3 dias, comecei a sentir as contrações e avisei a Lucélia os intervalos e duração, estavam durando mais ou menos 50 segundos e vinham a cada 30 minutos (eu acho). A Lu estava de plantão, e resolveu vir pra casa porque tive diversos sonhos em que a Laura nascia no banheiro só eu e ela. A Lu chegou na manhã fez um toque, estava com apenas 1cm e fez um cardiotoco, não me lembro exatamente qual foi o problema mas não tinha oscilação dos batimentos durante as contrações. Fui pro banho e chorei demoradamente, conversei com a Laura contei pra ela que eu estava pronta se ela estivesse e pela primeira vez me permiti ter medo. Durante toda gestação quando cogitava PN me perguntavam se eu não tinha medo, por dentro minha vontade era dizer _tô morrendo de medo gente, medo da dor, medo dos pontos, medo de dar errado_ mostrar que eu era forte, a resposta padrão era _não, PN é melhor pro bebe_ e esse era o mantra. Naquele banho assumi meus medos e frustrações. Quando sai do banho a Lu tinha ligado pra Amélie que ela tinha tirado as cartas pro parto e uma das coisas ditas foi que antes eu deveria me livrar dos medos, e eu tinha acabado de fazer. Refizemos o cardiotoco e os batimentos regularizaram. Ufa! Comecei a me movimentar e perto da hora do almoço a Amélie chegou. A Nath chegou já estava escurecendo e as contrações continuavam com pouca alteração. recebi muito amor muita massagem, muito carinho, mas nada da Laura chegar.
thais e laura  Me desculpem, não sei se pelo cansaço, não me lembro da cronologia exata do que aconteceu, mas me lembro das massagens da Lucélia, da Amélie me fazendo acupuntura, da Nath acendendo incensos e dos escalda pés. Me lembro de me oferecerem comida a todo instante, mas eu só conseguia chupar picolé.
thais e laura
Lembro de tomar muito chá, Lembro de muito amor. Houve um momento em que o sono já estava apertando demais, eu literalmente cochilava dentro da piscina e junto com meu marido choramos, senti minhas forças indo embora, vi as meninas chorando conosco, foi um momento muito intenso. Fomos pro banho, eu e meu marido e choramos juntos, ele me disse que estaria comigo, que sentia muito orgulho da minha força que apoiaria qualquer decisão que eu tomasse, me senti bem melhor, e resolvi aguentar mais um pouco. Acho que os banhos de chuveiro nos davam novo animo. Mas o tempo foi passando.
thais e laura

Fizemos mais um toque, isso já na segunda feira, já passavam de 30h e eu ainda estava com 7cm. Senti que não iria aguentar e lá pelas 19h do dia 13 de outubro me rendi, queria anestesia pra conseguir descansar ao menos um pouco. A Lu ligou pro Paulo Fasanelli (que era meu plano B) mas ele estava em Catanduva de plantão, mesmo assim ele nos mandou ir pro hospital de lá.
Nesse momento eu estava com contrações muito fortes, de 3 minutos de duração e vinham a cada 30 segundos. Dentro do carro as contrações aumentaram e por medo de não conseguir chegar em Catanduva fomos para a Santa Casa. Até aqui meu trabalho de parto foi lindo, com muito respeito, e muito, muito amor.
Agora vem a parte do parto que eu gostaria de esquecer. Chegamos no Hospital, eu a Lucélia e meu marido. Fui atendida por uma plantonista, uma pessoas totalmente desumana e monstruosa. Ela nos falou pra fazer o parto particular porque pelo SUS o anestesista iria demorar demais, pois ele atendia “por ordem de chegada”.
Meu marido foi até a recepção, onde a Lucélia estava, pois não foi permitida a entrada dela na sala de parto, era ela ou meu marido. Não haviam quartos disponíveis para um parto particular, mas como a GO não tinha essa informação e acreditou que o parto seria particular ela já tinha conseguido o anestesista.
Tomei a anestesia e parei de sentir as dores e por alguns minutos fechei meus olhos e descansei. Meu marido voltou, me contou que não haviam quartos disponíveis, que seria tudo pelo SUS, que a Lucélia não poderia estar ali e que ele não poderia ficar no quarto comigo. Como já não havia o que fazer aceitamos.
Pouco tempo depois entra a GO, a aí começa o terror. Ela faz um toque, diz que estou com 10cm mas com um pouco de colo e que vai romper minha bolsa, eu questiono a necessidade do procedimento mas ela já estava com um espeto dentro de mim e estoura minha bolsa, logo depois ela faz um novo toque, afastando meu colo e sai um bocado de sangue, eu ainda atordoada com todo esse procedimento, ouço a enfermeira dizendo que os batimentos da bebe estão bem. Foi então que a GO me olha e diz ” olha, se daqui uma hora não nascer você vai pro centro cirúrgico.” Nesse turbilhão de sentimentos, no meu cansaço eu consegui raciocinar, e tomei a decisão de não bater de frente com o monstro do bisturi e tentei ser o mais politica possível. Disse que iriamos conseguir mas que não queria epísio ou Kristeller. Ela fez cara de poucos amigos e disse apenas que iria tentar. Estava com muito frio, pois o ar condicionado era bem na frente da mesa de parto e eu tremia muito. A cena era a seguinte eu tentando, a cada contração, expulsar meu bebe, com o máximo de força que me era possível, e toda a equipe encostada na parede a minha frente conversando sobre assuntos diversos, me senti humilhada, desassistida, mas empoderada, eu iria parir minha filha, nem que eu tivesse que sair correndo daquela sala.
Foi quando a monstra começou a dizer _se fizesse o Kristeller, já tinha nascido_.
Depois de ela dizer isso repetidamente, apesar de saber de todos os riscos, com medo de ela não nos dar mais tempo, aceitamos a “manobra”.
Meu marido então começou a filmar pois se algo saísse do controle teríamos documentado. A cada contração, era uma força horrorosa aplicada sobre minha barriga, e assim foram algumas vezes, até a Laura finalmente sair, com uma circular de cordão que tão logo estava desenrolado de seu pescoço, já foi cortado. Esfregaram muito a bebe, que não chorou e foi levada, meu marido foi logo atrás e ficamos eu, a GO e um vazio na sala de parto.
Não tive aquele choro tão esperado ao ver meu bebe, não olhei nos seus olhos e me vi, não tive aquela ligação tão desejada. Estava sozinha e vazia. Naquela sala fria, com aquela mulher totalmente alheia ao meu sentimento.
Meu marido retornou e logo me trouxeram a bebe. Não sei se pelo cansaço ou por toda essa frustração mas não me liguei a ela, não senti nada. Hoje avalio isso, mas no momento não consegui sentir nem essa tristeza que hoje sinto ao lembrar disso.
Ela foi levada e o parto acabou, assim, sem amor, sem respeito, sem sentimento.
Eu tive apenas 4 pontos de lacerações leves causadas pela bebe, rapidamente ela deu os pontos, e me lembro de enquanto ela estava saindo, sem olhar pra minha cara, dizer a ela, “obrigada doutora”. Ela apenas deu um sorriso amarelo e saiu. E eu fui pro quarto do SUS.
Aí começa a ultima parte das provações, a parte que me colocou em cheque. Laura estava no berçario. Eu estava num quarto com mais 3 mães e seus respectivos bebes, num calor desumano, e nesse lugar haviam janelas voltadas para um corredor, completamente sem ventilação. Me levantei da cama e fui pro vidro do berçário esperar meu bebê. Vi ela ser esfregada sob uma torneira e gritar a plenos pulmões, senti uma tristeza tão profunda, uma impotência, mas estava firme, pois ela iria precisar de mim. Já passavam mais de 48 horas sem dormir quando Laura foi pro meu peito, e mamou, se deliciou e dormiu no meu colo. Ficamos nós duas aninhadas, naquela sauna, finalmente eu pude ser a mãe dela, pude finalmente me conectar com minha cria. Estava finalmente feliz. Na noite seguinte Laura chorou até as 3 horas da madrugada, eu andava com ela pelos corredores, com ela aos prantos, cantando pra ela, e passava por enfermeiras que não tiveram compaixão por nós. Apenas as 3 horas da madrugada que uma delas resolveu pegar minha filha e fazer algumas massagens, a coitadinha soltou uma massinha de mecônio e muitos puns. Após isso ela dormiu. Ela chorava desde as 10 horas da noite e não havia uma pessoa pra nos acolher. Graças a Deus no dia seguinte fomos liberados e pudemos vir pra casa começar o puerpério.
Pra resumir o que aprendi com esse parto nada perfeito, foi que tudo aconteceu como deveria acontecer. Não tive um parto de revista, no final parecia eu um bicho, exausta; não fiquei confortável numa cama deliciosa, com meu ar condicionado, na minha casa super preparada, estava num alojamento quente e feio; estava cercada de estranhos que eu tanto queria longe da minha cria, fui ajudada por esses estranhos pois eu tinha que ir ao banheiro ou buscar água e eles olhavam minha filha por mim. Mas nada disso foi importante e no final só conseguia pensar na minha cria, no meu bebe indefeso que precisava tanto de mim.

No final eu estava feliz. Feliz porque fui forte e apesar de nada acontecer como planejei, eu conquistei meu PN, eu lutei e pari uma criança linda e saudável, eu tive leite e amamentei assim que ela veio pro meu seio, e tive calma pra acalentar seus primeiros sofrimentos nesse mundo estranho. Cansada mas feliz.
Sempre me perguntam se eu faria novamente, e eu sempre respondo, faria mil vezes, porque eu pari além de uma criança, uma mulher que hoje tem força pra nutrir e cuidar da cria, sem frescuras, sem futilidades e com muito amor!
Obrigada à Lucelia Caires que me acompanhou no meu puerpério, Amélie Lecorné que me deu tanto amor e a Nath Gingold que até hoje me aconselha, como uma mãezona. Obrigada a vocês mulheres que nos dão tanta força. Gratidão!

familiafamilia familia

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