Parto domiciliar Bianca e Alice

Relato de parto domiciliar de Bianca Alves Marquetto, na cidade de Barretos, SP, Com Obstetriz Arielle Matos.

“Tenho 18 anos, mãe jovem de primeira viagem, taxada como louca por querer um parto normal. Desde que eu comecei a me afundar no mundo da humanização dos partos, comecei a entender mais dessa luta do “parir” em um pais onde os índices de cesáreas são gritantes, de cada 100 bebes que nascem, 84 são cesarianas. Poxa sera que alguém perguntou ao bebe se ele estava pronto para nascer? Decidi que não era isso que eu queria para mim e para minha filha, queria que fosse no momento dela, no tempo dela! Então comecei a me preparar para que isto fosse possível, eu devorava tudo que se relacionava a esse assunto, passava as tardes assistindo partos, me emocionando e mentalizando o meu, lia artigos, relatos, comecei a seguir paginas e paginas sobre o assunto, participar de inúmeros grupos no face e me relacionar cada vez mais de perto com este mundo,conversando com mulheres que entendiam da causa, e lutavam pelo mesmo fim. Aquela infinidade de imagens linda de mulheres empoderadas, divas enfrentando a dor, o choro, a lágrima, o suor, divando, fazendo possível o nascimento por meio natural de seus filhos. Nascer é divino! Mas parir, bom isso já é outro assunto!
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A verdade é que as mulheres perderam a fé nelas mesmas, elas não acreditam na força que tem, na garra e na capacidade que tem de parir, a verdade é uma só, a natureza sabe fazer seu trabalho, a gente só precisa se entregar a isso. Claro que não é nada fácil, e eu só fui entender isso quando foi na minha pele, cheguei a ficar ate confusa, tipo “ cade a calmaria que aquelas mulheres tinham naqueles vídeos?” Dói e dói demais. É preciso de muita conexão consigo mesma, e com seu bebe, a partolandia vem, e vem com vontade, ela não pede licença, quando se entra em trabalho de parto, quase sempre vai ser tarde para voltar atrás e nem compensa, quando já se venceu tudo que foi preciso para chegar ate ali, então vamos parir!
Durante minha gestação, troquei de GO com 33 para 34 semanas de gestação, simplesmente porque eu sabia que se continuasse por aquele caminho com certeza acabaria em uma sala de cirurgia fazendo uma cesárea, e não era mesmo isso que eu queria. E bom a melhor decisão que tomei foi essa, a minha nova medica era uma amor, uma japonesa calmaria em pessoa, toda vez era uma historia nova que rendia minhas consultas, ela vivia me contando relatos que ela acompanhou, era adepta de parto normal ainda e de domiciliar também, pode acreditar, ainda existe esses anjos!
Meu sonho era o parto domiciliar, com piscina inflável, doula, parteira, musica calma e muita fé! Todos surtaram, não entendiam essa possibilidade, tinha medo.Por um milagre divino eu já havia conseguido arrumar toda equipe para assistir meu parto, era só esperar. Porem foi preciso abrir mão, supostamente estava decidido que eu iria parir pelo SUS. Eu estava morrendo de medo, devido todas intervenções e violência obstétrica que já havia ouvido falar, ninguém entendia isso, só diziam que eu precisava ficar calma, no fim já nem sabia mais se todo o conteúdo que eu havia buscado estava sendo bom, porque eu estava com medo, com muito medo.

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Com 40 semanas e 7 dias o grande dia chegou, já não aguentava mais de tanta ansiedade, as 2:15 da madrugada do dia 1 de fevereiro meu tampão desceu, falei para meu namorado que não demoraria, provavelmente de domingo não ia passar. Ficamos acordado até as 4 horas pra assistir a luta do Anderson Silva, triste decisão, me arrependi muito por não ter ido descansar. A cinco da manhã as contrações começaram a vir de 30 em 30 min, como estava com muito sono, conseguia dormir entre uma contração e outra, as 7 horas da manhã se intensificou e começou a vir de 15 em 15, já não consegui dormir mais, levante e fui andar pela casa, quando eu vi que ia engrenar mesmo, comecei a arrumar as coisas, em meio ao choro arrumando o berço da minha princesa e colocando as ultimas coisas na mala. Fui para o chuveiro para ver se aliviava, as 8 hrs as contrações já estavam vindo de 5 em 5 minutos. Meu namorado começou a ficar receoso quando eu comecei a ajoelhar ao lado da cama a cada contração, quase chorando, queria que fôssemos ao hospital, eu não queria porque sabia que demoraria bastante tempo ainda, foi quando eu acabei vomitando devido a intensidade das contrações. Fiquei preocupada pois minha medica não havia me dito que isso podia acontecer, então eu aceitei ir para o hospital.
Um pouco antes eu havia mandado mensagem para minha parteira e também em um grupo de apoio a parto normal que eu faço parte, eu precisava de algum incentivo naquele momento, estava com medo de acabar fraquejando devido a dor. As meninas começaram a se mobilizar, me auxiliando e torcendo por mim, não consegui mais acompanhar o que acontecia, fomos para o hospital.
Chegando lá me colocaram em uma sala pré-parto sozinha, ninguém pode entrar comigo nem minha mãe, fui um terror, minha única distração era algumas pombinhas que eu conseguia ver pela janela, que mais tarde a enfermeira fechou, vez ou outra alguma enfermeira entrava mexia em papeis e saia, ninguém nem ao menos perguntava se estava tudo bem, minha vontade era sair correndo de la, e correr para o braço de alguém, e confesso que ate cheguei ir ate a porta varias vezes, mas sair de lá não resolveria em nada, isso só faria com que me maltratassem mais tarde. Aquilo parecia um filme de terror, tendo que lutar contra as dores, sozinha sem saber o que aconteceria mais tarde, queria desesperadamente meu chuveiro, aquela água quentinha, um abraço, e o auxilio de alguém.
Bom não sei ao certo quantas horas fiquei esperando ate que o medico chegasse, se eu já estivessem em fase ativa, bem provável que as enfermeiras que teria tido que fazer meu parto, já que o medico chegou apenas horas depois, duas ou três. As enfermeiras me mandaram vestir uma camisola e com a maior grosseria me mandaram deitar em uma maca de barriga pra cima que o medico faria o toque em mim, eu não conseguia ficar naquela posição porque doía demais, a enfermeira me segurou e mandou eu ficar com a perna dobrada e aberta. O medico fez o toque que doeu muito, muito mesmo, disse que minha dilatação estava só começando que eu podia voltar pra casa. Que alivio, aquela foi a melhor noticia que eu podia ter recebido.
Quando encontrei meu namorado novamente ele disse que a Arielle, minha parteira estava preocupada comigo, pediu pra que eu ligasse pra ela. Que alivio quando ouvi a voz dela, sério, eu só precisava de alguém que me apoiasse naquele momento, e ela havia me acompanhado, sabia das minha dificuldades. Acabou sendo decidido que ela viria ficar comigo, graças a Deus, não sei o que teria sido da gente sem ela ao nosso lado.
Era cerca de 11:30 ou 12:00 quando foi decidido que ela viria, ela deu uma hora e meia para estar na minha casa, pediu para que eu tentasse descansar. O que era meio impossível já que as contrações não davam mais trégua, uma atrás da outra, de 3 em 3 minutos, era como se mal acabasse uma, já vinha outra. Tentei seguir os conselhos da Arielle, deitei na minha cama, procurei relaxar e me entregar aquele momento, coloquei a playlist que havia preparado para rodar e liguei o climatizador bem na minha cara, parecia que era quase possível dormir, eu estava exausta, queria que aquilo acabasse ali, por momentos infindáveis pensei em desistir, cheguei a entrar no quarto da minha mãe chorando, dizendo que não aguentava mais, que queria ligar para minha medica, cheguei a pedir ate pela cesárea temida, e minha mãe “ você aguenta”.
A cada contração eu urrava, sério mesmo, gritava e gritava muito, pra valer, as vezes colocava o travesseiro na cara e minha vontade era atravessar ele. Eu esmurrava minha cama, minha vontade era de quebrar tudo. E eu agradeço muito por ter ficado sozinha naquele momento, talvez na companhia de alguém eu não teria conseguido me entregar daquela maneira, e as pessoas não entenderiam, talvez me amarrassem e me levasse para o hospital, minha mãe foi a única que acompanhou mesmo tudo de perto, e agradeço mais ainda pela força que ela teve, respeitando meu momento, vez ou outra ela entrava no meu quarto, meio perdida, perguntava se eu tava bem mesmo, se não queria ir para o hospital. Cara a única coisa que eu pensava era “Deus me livre daquele pesadelo, mil vezes sofrer sozinha aqui no aconchego da minha casa do que naquele lugar.” Teve uma hora que eu lembrei de uma gata que tive, quando ela ia parir, a pobrezinha ficava andando pela casa toda miando, um miado doido, eu mal podia imaginar o que ela estava passando, como no texto acima, é exatamente a mesma coisa, é simples a lógica, aceita que dói menos, somos mamíferos, somos animais, e ainda mais na hora de parir. E no final tudo que cruzar seu caminho naquele momento você vai se agarrar, me agarrei ate nas musicas, teve um momento quando consegui me concentrar em uma das musicas, porque no fim das contas se eu consegui ouvir uma ou duas foi muito, falava assim a letra: “Tem vez que as coisas pesam mais, do que a gente acha que pode aguentar, nessa hora fique firme pois tudo isso logo vai passar!” É isso eu precisava ser forte, eu precisava vencer a dor, eu precisava ir ate o final, então decidi ir para o banheiro novamente, até que a Arielle chegasse.
Bom foi ai que entrei mesmo na partolândia, perdi totalmente a noção de tempo, lembro que a Arielle chegou e foi como se eu tivesse visto um anjo na porta do meu banheiro, engraçado como eu nunca havia visto ela pessoalmente, mas era como se a conhecesse desde sempre, foi um conforto, um alivio, uma paz tão grande ter ela aqui, eu sabia que agora estava tudo bem, que com ela ali eu não desistiria, ela não deixaria eu desistir. Pedi pra ela fazer o toque em mim, eu precisava mais que tudo saber com quanto de dilatação eu estava. E pra sair daquele chuveiro, misericórdia, era um passo eu queria voltar, a dor era muito forte, eu mal conseguia andar, só queria ficar ali sentada, quieta, mas era preciso, precisava medir o batimento da Alice também, precisava saber se estava tudo bem, então foi, pouco a pouco, entre um intervalo e outro consegui chegar ao meu quarto. Foi quando a Arielle me deu a melhor noticia do mundo, eu já estava com 9 cm, na minha cabeça 4 cm era muito, quando ela falou 9 foi como se eu tivesse ouvido você ganhou na loteria, sério uma nova força me invadiu, ela disse que não dava uma hora e meia até que ela nascesse.
Voltamos para o chuveiro ai perdi a noção de vez de tempo, espaço e tudo o mais, a Arielle ali me confortando, de repente meu namorado chegou, e minha mãe andando pela casa, lembro de ver vez ou outra eles algum deles na porta, meu namorado tentou filmar e fotografar o que ele conseguiu, quando o mal estar não atrapalhava, eu entendo ate, quando assisti os vídeos, acho que teria ficado exatamente como ele, eu chorando e gritando, e ele sem poder fazer nada.
Minha bolsa rompeu, foi muito mágico, parecia uma bexiga caindo no chão, foi então que a Arielle me disse para eu avisa-la quando sentisse vontade de fazer coco. Não demorou muito, eu fiquei assustada, era como se eu estivesse com uma diarreia terrível. “Arielle to com vontade de fazer força” ela com toda calma do mundo “Então faz, faz o que o teu corpo pedir” foi quando minha mãe apareceu com meu vestido pedindo para irmos para santa casa, mas era impossível eu sair dali, eu mal consegui ir ate meu quarto, como conseguiria ir ate o carro e aguentar ate chegar ao hospital, eu só pensava no aconchego daquela água quentinha.
A Arielle estava comigo, me perguntou se eu queria ir, disse que não, ela tentou intervir por mim, e pediu pra que respeitassem minha vontade. Veio mais uma contração, mais vontade de fazer força, era muito loco, a vontade é incontrolável, totalmente involuntária, a Arielle me apoiando, disse que se minha vontade fosse ter ela ali, então ela estaria comigo, claro que todos ficaram aflitos, aquilo parecia loucura, não para mim e para a Arielle. Minha mãe ligou para ambulância e foi para o portão esperar, eu estava exausta queria deitar, sentar, sei la, estar confortável em algum lugar, a Arielle me disse então que em pé a gravidade ajudava, então borá la, vai ser em pé mesmo, lembro que minha sogra apareceu na porta quase chorando, e de repente um monte de gente entrou na minha casa, a ambulância chegou e nisto a cabeça já estava pontada, não havia mais como andar, se andasse todo o esforço seria em vão, o bebe voltaria para dentro, então foi ali mesmo, com uma perna dobrada apoiada sobre o banco, uma mão segurando no porta toalha e muita ocitocina.

Nasce as 14:50 minha princesa, a Arielle colocou ela nos meus braços e eu só conseguia chorar, estava meio sem forças nos braços, ela toda molinha cheia de sangue, escorregando, eu abracei ela e chorei, chorei e chorei, eu não acreditava no que havia acabado de acontecer, eu havia conseguido, a dor havia acabado, que gloria. A Arielle cortou o cordão e equipe levou a Alice para ser examinada na ambulância, minha casa esvaziou, foi todos atrás da neném e eu fiquei ali sozinha com a Arielle novamente, eu queria sei la, encher aquela anja de beijo, pedi um abraço, toda molhada e cheia de sangue e mesmo assim ela não me negou, a emoção não cabia em mim.
Sai andando pela casa com o cordão pendurado, a placenta começou a pesar dentro de mim, doía muito, me deitaram na maca e me levaram para a ambulância também, me neguei olhar para minha rua, com certeza deveria estar a rua toda assistindo. Na ambulância a enfermeira colocou a Alice encima de mim, meu Deus que emoção, ela bocejando, querendo dormir, acho que nem havia se dado conta que nasceu. Pedi para q a enfermeira tirasse minha placenta porque eu estava com muita dor, foi aquele alivio quando saiu, ai eu louca mesmo perguntei o que ela faria com a placenta, se jogaria fora, ai rindo alto lembrando tudo isso, eu naquele momento todo, em meio a todo aquele tumulto comecei a pedir uma folha porque queria fazer a impressão da placenta. A Alice foi no colo da enfermeira, eu ali vendo ela o tempo todo, chegamos ao hospital, levaram ela para tomar banho e eu fui tomar ponto. Eu pedindo a folha incessantemente, a enfermeira me arrumou e eu peguei aquele negocio cheio de sangue coloquei na folha e fiz meu namorado ficar andando c a folha ate secar, tadinho, as pessoas olhando para ele como se ele fosse estranho. Fiquei ali com a mão cheia de sangue, toda molhada, me deixaram tomar um banho antes de ir tomar ponto, que alivio, eu sentia um vazio grande por dentro, era como se meus órgãos todos houvessem decido, doía um pouco, dava falta de ar as vezes, e a enfermeira ficava me perguntando as coisas, eu mal conseguindo conversar. Quando o medico chegou, o mesmo que havia me examinado de manha, ele olhou para mim parecia bravo, com desde ele disse: “ É parabéns, você não precisa de medico!”, me examinou e disse que precisaria dar ponto , me levaram para sala de parto, e parecia que era pra me torturar, me deixaram ali um tempão com a perna aberta, ele andando pra la e pra cá, mexendo em papeis, eu perguntando se daria anestesia e ninguém me falava nada, e pra variar eu sozinha, querendo chorar. Doeu muito pra dar ponto, a anestesia foi um horror de doida, mas seria pior sem ela, com certeza, fiquei ali chorando as vezes murmurando pela dor, até que acabasse, não sabia nem que sentimento estava sentindo, se era de alivio por minha pequena não ter nascido ali, naquela sala, com aquele medico, se era de dor, ou por estar sozinha, mas no final é assim, a solidão é até produtiva.

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Bom tudo passou, eu consegui, venci o sistema, venci a dor, o medo, a solidão, e todo resto, minha princesa nasceu com 3.550kg e 50,5cm. Quando se passa por esta experiência não há como continuar sendo a mesma pessoa com a mesma cabeça, a dor faz a gente amadurecer anos em horas, e posso ate arriscar dizer que nos da uma injeção de força para tudo que vira, ser mãe não é fácil, gestar, parir e criar, nenhum destes processos é fácil, mas no final vale a pena, a cada sorriso, toque, sentir o cheiro, abraçar aquele serzinho, é como se não houvesse mais nada que importasse a não ser ver este pedacinho de gente bem. É isso nascer é divino, mas parir é mesmo animal! Em sua mais pura realidade, agora todos me perguntam se eu passaria por tudo isso novamente, bom daqui uns bons anos, posso dizer que sim, não consigo dizer que 100 vezes como algumas mulheres dizem, mas outra vez eu me arriscaria nessa incrível experiência, no final a partolandia é pura brisa, tanto hormônio correndo na veia, valeu a pena!

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Obrigada mais uma vez a Arielle e a talita e a cada uma de vocês do grupo Gaia, pelo apoio, pela torcida, informações, orações, energia positiva, vocês fizeram que meu sonho fosse possível, junta a vocês eu venci tudo isso!”

Relato gentilmente cedido por Bianca Alves Marquetto

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Um pensamento sobre “Parto domiciliar Bianca e Alice

  1. Parabéns Bianca pela a sua atitude se todas mulheres pensassem assim. LLinda história e assim sensitiva várias mulheres pois vc tá sendo um exemplo para nós que ainda não somos mãe. Parabéns Bianca que Deus abençoe você é tua família

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