Relato de parto Poliana e Gael

Relato de parto domiciliar Poliana e Gael, realizada em São José do Rio Preto, com parteiras Lucélia Caires e Amélie Lecorné e doula Nathalie Gingold:

“Demorei um pouco para conseguir organizar as ideias e relatar sobre o dia 14 de outubro de 2014. Hoje, três meses depois, consigo raciocinar e escrever melhor sobre o nosso dia, meu e do Gael.
A decisão de viver um parto domiciliar se deu no último trimestre da gestação. Mesmo com a sugestão de uma querida amiga (Camila Marcelino) no início da gravidez, ainda tinha dúvidas. Dúvidas que foram sanadas com o tempo, com pesquisas, com conversas com profissionais, com mulheres mães, com senhoras que tiveram seus filhos em casa e com as mães do grupo Gaia.
Ao ver vídeos e depoimentos de nascimentos de bebês no hospital (natural ou cesária) e em domicílio, percebi que a melhor forma de receber meu filho neste mundo, seria em casa, no nosso canto, sem pressa. Compreendi que mãe e filho, ao nascerem, só querem se abraçar, se acalmar e iniciar essa nova vida, juntos.
Dizem na medicina, que o primeiro minuto de vida é o minuto de ouro, e é mesmo! Nascer não é fácil! O bebê que até então estava fisicamente ligado à mãe, agora é livre, seguirá sozinho por seu próprio corpo. É um choque! Recebê-lo da forma mais carinhosa possível, amparando-o nesse momento tão sensível, para mim, era o melhor a fazer.
Ter tido uma gestação tranquila (considerada de baixo risco) e apoio do meu marido, também foram fundamentais para a minha decisão; para o meu empoderamento, se posso assim dizer. Não me senti poderosa, nem nenhum adjetivo que me vangloriasse. Senti apenas, que estava decidindo ouvir o meu corpo, meu bebê, meu instinto. E assim foi feito.
Encontrar profissionais que acompanhassem meu parto foi difícil. Conheci a Lucélia primeiro. Enfermeira obstetra, baiana porreta e querida amiga, terá para sempre um papel super especial na minha vida. A Amelie foi outro presente de Deus. Enfermeira obstetra, francesa meio brasileira, foi o check mate para que o parto domiciliar se tornasse realidade. Com a equipe profissional formada, segui para o próximo passo.
Combinei que o nascimento do Gael seria no meu pequeno apartamento. O trabalho de parto e a concepção em si, aconteceriam ali. Tentava imaginar como seria o grande dia. Imaginei ter amigas e parentes comigo, fotógrafos e doula, e por fim, achei que iria me incomodar com a presença de muitas pessoas ao meu redor e resolvi resumir a equipe nas enfermeiras, no meu marido e em mim. Acreditei que por estar muito exposta, num momento muito íntimo, não me sentiria a vontade. Grande engano! Primeiro porque não me incomodei um segundo se quer com a observação de ninguém. Sinceramente, esse tipo de preocupação não pertence a uma mulher que está tendo um filho. Comprei um top para não deixar meus seios à mostra, e só me lembrei dele muito tempo depois. Ri da minha ingenuidade. Segundo, porque de última hora tive uma doula, a Nath, que já conhecia e veio por chamado da Lucélia com minha autorização, e foi fundamental. Ainda bem que ela estava ali.
As contrações começaram por volta das oito horas da manhã. Tinha dormido super bem, levantei, fui ao banheiro como de costume e vi algo gelatinoso que deveria ser o tampão. Falei com meu bebê… chegou o nosso dia…dia tão esperado….vou te ver! Voltei para cama e esperei ter outra contração para chamar o Gui. Tive. Ele correu pegar o celular pra usar o aplicativo de contagem de contrações que há tempos tinha instalado. Estavam de cinco em cinco minutos.
No dia anterior tinha nascido a Laura, acompanhada pela mesma equipe que a minha e o parto tinha sido longo, foram 43 horas e acabou as três da matina. A Amelie, que é de fora, me ligou perguntando se eu sentia que meu parto seria logo, pois assim ficaria em Rio Preto por mais dias. Eu estava completando 40 semanas, mas estava tão bem, que disse que não. Achava que o Gael nasceria mais pra frente, com 41 semanas talvez. Ela foi embora e o Gael resolveu nascer. rsrs
Após verificarmos a frequência das contrações, resolvi avisar a Lu. Como ela tinha ido dormir tarde, escrevi pelo whatsapp: Lu, as contrações começaram…. descanse e quando acordar me ligue. Ilusão minha, ela já estava trabalhando. Me ligou para sentir como eu estava (eu estava ótima) e disse que provavelmente eu estava com uns 2 dedos de dilatação, que assim que acabasse a reunião na qual estava passaria na casa dela, pegaria todos os equipamentos e viria. Combinado.
Ao desligar o telefone mergulhei no meu trabalho de parto. As contrações que até então eram fraquinhas foram se intensificando rapidamente, uma a uma. Deitada na minha cama, me concentrei na minha dor. Estava muito segura, tranquila. Entrei na força daquele momento. Não vi nada e não vi o tempo passar. Só ouvia repetidas vezes a música Madre tierra Madre vida, como um mantra…. e cantava, sozinha no quarto

.

O Gui estava tentando organizar a casa como tínhamos pensado. Colocar música, preparar câmera e abrir espaço para a piscininha, mas hoje lembro que ele estava como uma barata tonta, meio perdido sem saber o que fazer primeiro…. levava o dobro do tempo em cada coisa. rs
Resolvi tomar um banho. Sentia uma dor no quadril, muito forte. Como as contrações eram intensas, tentei ficar ajoelhada….não deu. Voltei pra cama. Lembro-me de ter ido ao banheiro fazer numero 2. E foi como uma dor de barriga. Fiquei aliviada, porque não queria fazer cocô durante o parto, já que era uma possibilidade.
Tudo isso durou quatro horas, e para mim parece que tudo aconteceu em no máximo uma. Quando a Lucélia chegou já era meio dia e eu nem tinha percebido o tempo passar, estava em outra dimensão. Ela chegou e foi como um estalo. Acordei! E aí disse a ela….ou eu sou muito mole, ou o Gael já vai nascer…rs. As contrações ficaram ainda mais fortes, e nesse momento, com 4 horas de trabalho de parto, já estava nua, despida de qualquer vergonha, selvagem com a minha dor.
A Lu fez então o exame de toque e verificou 7 centímetros! Ligou para a Amelie no mesmo momento e recomendou que ela viesse logo, pois meu parto estava evoluindo muito rápido e talvez não desse tempo dela chegar. Com esta possibilidade a Lucélia perguntou se poderia chamar a Nath para ajudá-la. Claro que poderia! Pareceu que ela chegou em dez minutos, mas depois disse que chegou em casa por volta das 13:30. Após a chegada da Lu, comecei a me movimentar, até então só tinha levantado da cama para tomar banho. Não era fácil andar. Andava com ajuda. Me sentia aérea a tudo o que acontecia. Comecei a obedecer ao que diziam. Me pendurei na barra da porta. Os três me ajudaram. Isso foi muito bom, e aliviou um pouco a dor no quadril. De lá fui para o sofá, acho. E logo comecei a sentir vontade de fazer força. Como dizem, parece mesmo uma vontade de fazer cocô, mas diferente..rs A Lu percebendo, disse que era hora de ir para a piscina. Na piscina parece que o tempo parou. Já estava na fase do expulsivo, mas essas duas horas finais pareceram muito mais longas.
Não senti qualquer medo ou insegurança em nenhum momento. Acho que isso é empoderamento né? Mas não foi consciente, foi natural. Não pensei em ir para o hospital, porque sentia que estava tudo indo bem….e a cada segundo, estava mais próximo de então ver o meu bebê!
Nesse momento, dentro da piscina, consegui ouvir que tinha música no ambiente, uma seleção de músicas celtas que gostava. Vi as pessoas, o Gui, a Nath, a Lu! Até consegui me preocupar entre uma contração e outra que já devia ser tarde e ninguém tinha almoçado. Eu comia algumas coisas que me davam, lembro-me de chocolate…. e tinha tomado café da manhã também….mas não sentia fome….estava na FORÇA!
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E então, o Gael foi querendo sair, podia sentir a cabecinha dele, mas ainda estava na bolsa, meio gelatinosa. Me levantei e então a bolsa estourou, acho que eu estava abraçada ao Gui. Saiu um jato de água, como uma bexiga com água que estoura ao cair no chão…. e então pude sentir seu cabelinho….muito cabeludo! Eram os minutos finais do parto. Era tanta força que eu fazia, que as vezes saía um pouquinho de cocô….as meninas me socorriam….por isso que digo que trabalho de doula exige uma doação gigante! Rs… não senti vergonha…não tinha cabeça pra isso…só repetia baixinho para dentro de mim…..vem filho! Vem filho! E ele vinha….
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Gemi e gritei com uma voz que vinha da alma! Não imaginava que gritaria… mas me dava força. E assim, as 15:56, o Gael veio ao mundo! A Lucélia o recebeu gentilmente, pois eu não teria conseguido segurá-lo ao nascer….e então me entregou meu bebezinho lindo, calminho, meu pequeno samurai. Não acreditava que a gente tinha conseguido! Repeti isso umas vinte vezes ao ver o Gael…rs Eu, que nunca tinha sofrido dor na vida… consegui lidar bem com o parto…as contrações não me abalaram….e agora estava ali, com o serzinho que mais esperava encontrar em toda minha vida! Sempre quis ser mãe….amo ser uma! Para mim, esta experiência foi um presente divino! Uma honra!

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Infelizmente o parto não acaba aqui rsrs….achava que a dor tinha ido embora com a chegada do Gael…ilusão. Fomos para uma cama preparada para mim na sala de casa. O Gael me olhava com olhos vidrados….me apaixonei! A Nath colocou ele para mamar no meu seio. O Gui cortou o cordão após parar de pulsar. E a Lu finalizava os procedimentos do parto. Não tive laceração do períneo, o que foi um alívio para mim, mas conforme a Lu, tive um pouco de hemorragia, acabei sangrando mais que o usual para um parto normal. Ela conteve o sangramento com massagens na minha barriga para contrair o útero e com as mamadas do Gael. Parou rápido, ainda bem. E a placenta saiu íntegra logo em seguida. Lembro-me de ficar mentalizando…. contraia útero, contraia….deve ter ajudado.
A amamentação foi necessária naquele momento, mas sinceramente, se eu pudesse adiar, adiaria. Doeu muito. Sempre tive muita sensibilidade nos seios…. e aquelas pegadas do Gael eram uma tortura. Sei que é triste escrever isso, mas a amamentação para mim, desde a primeira pegada até mais ou menos um mês de puerpério foi difícil… exigiu muito de mim….mas valeu a pena! Hoje, segue uma beleza!
Voltando ao parto… a Amelie chegou logo após o nascimento do Gael. Foi o máximo que conseguiu fazer, já que mora há quatro horas daqui. Foi muito bom vê-la. Ela e a Lu conversaram sobre a necessidade de se dar uns pontinhos ou não na pele lacerada…. e decidiram por fazer. A Amélie ajudou nesse momento, e ao todo foram quatro pontinhos (filhos da mãe)… dois na parte superior e dois na parte inferior da vagina. Doeu, mesmo com anestesia local.
Tudo finalizado divinamente… estava tranquila, feliz com o Gui e o Gael ali comigo. E as meninas me autorizaram tomar um banho. Queria muito, mas ao levantar senti fraqueza. Fui devagarzinho ao banheiro, mas ao entrar no box, só consegui dizer…acho que vou desmaiar…rs acordei segundos depois com as três me segurando, abanando….não tinha percebido o desmaio….voltei a mim conversando normal, como se nada tivesse acontecido. Tomei o banho e fui me deitar com a minha cria.
Nisso eu já tinha avisado minha mãe que caiu no choro em mistura de alívio e felicidade. Só repetia graças a Deus, graças a Deus!…e eu digo…Graças a Deus por fazer a natureza da mulher e do nascimento tão perfeitamente, e por colocar no meu caminho pessoas tão sensíveis e especiais.
E assim, ao final de oito horas de trabalho de parto, celebramos a chegada do Gael brindando com um pedacinho de placenta cada um! A priori pareceu uma ideia difícil de conceber, mas com um toque de shoiu, até que não ficou nada mal.. kkkk
Gratidão aos meus pais e irmãs que souberam aceitar minha decisão, ao Gui que me respeitou e me deu força sendo um verdadeiro parceiro de vida, às meninas Lu, Nath e Amelie pelo profissionalismo e carinho imenso comigo, ao grupo Gaia por me permitir conhecer pessoas que me fortaleceram, à Talita, Isa, Nayara e Mariana, que foram doulas também por estarem sempre tão dispostas a me ajudar! Gratidão à vida por este presente!”

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