Relato de parto: Naiara Escobar Chaves e João Iaco de Carvalho

” Bem pessoas que lêem esse relato, não sei dizer ao certo onde começa o meu parto, mas vou falar do que acredito ter sido o início de um novo ciclo na minha vida: minha mudança para a cidade de Lins. Saí de Rio Preto um pouco forçada para acompanhar meu esposo que foi transferido de cidade pela repartição que serve. Assim que me mudei, em uma das inúmeras idas e vindas da casa de minha mãe em Rio Preto, para minha casa em Lins, eu já pressentia que alguém chegaria nesse mundo…minha menstruação estava uns dias atrasada, e comprei o teste de farmácia mesmo assim, parei em um posto na rodovia (queria era emoção mesmo nesse momento), e fiz o teste, que deu positivo. Fiquei emocionada e corri pro carro contar para meu companheiro, que no momento não acreditou, achou q fosse uma piada minha, rs. Passada a emoção inicial, começamos a fazer planos acerca da gravidez, do enxoval, do nome e do sexo do bebê, pensamos até mesmo no momento em que essa criança se tornasse um adulto. Enfim, pensamos em tudo, menos no parto, rs. Tenho uma filha de oito anos do primeiro casamento e na gravidez dela também pensei em tudo, menos no parto; afinal eu tinha apenas 17 anos e naquela época nem imaginava o que era Violência Obstétrica. Nem acesso a internet eu tinha. Rhaira nasceu de uma cesária em 2006 porque estava pélvica, e eu nem fiz questão de saber dos pormaiores porque simplesmente não imaginava a importância deles.

Naiara, Rhaira e Jayme
Naiara, Rhaira e Jayme

Voltando a gestação do Iaco, nos meses seguintes aconteceria um fato que mudou o destino do meu parto certamente: o caso da Adelir, que é do conhecimento de todas que se interessam pelo universo do parto. Adelir foi vítima de uma violência sem tamanho, por parte do estado e de um sistema obstétrico decadente; como o caso teve grande repercussão, acabei chegando até ele por intermédio das redes sociais. Fiquei encantada e envolvida com as mulheres que defendiam a autonomia daquela parturiente, e conheci um grupo de mulheres que lutam e se informam para ter um parto digno, o Grupo Gaia de Maternidade Ativa, em Rio Preto. Comecei a trocar informações com as meninas, e logo já estava indo as reuniões do grupo. Quando me dei conta, eu já almoçava e jantava parto , lia os blogs da Adèle Doula, da Melania Amorim , do Dr Ric Jones , da Ana Cristina Duarte ….lia relatos e mais relatos de parto, dentre eles o que mais me emocionou foi um de uma daimista antiga que pariu com o Daime. Tomou Daime o trabalho de parto inteiro e viu tudo de mais lindo que há no universo…alí, eu soube que era isso que eu queria para mim e para o João Iaco…todo aquele universo encantador já fazia parte da minha alma de índia libertária…rsss. Porém eis que me deparo com o sistema, e parir no meu caso seria um desafio, uma epopeia, como tudo foi até hoje na minha vida. Eu, uma mulher obesa, sem o rim esquerdo, com uma cesárea anterior, que já ouvira a um ano atrás de sua GO que não engravidaria “gorda daquele jeito, e se engravidasse as chances de um novo aborto seriam imensas”, como poderia parir ??? Lógico que eu teria que mover mundos pra parir. E eu movi.

A gravidez transcorreu da melhor maneira possível, sem nenhuma intercorrência. Me diverti, passeei bastante, fiz os rituais da minha doutrina, que é o Santo Daime, namorei e curti o meu esposo. Mas eu sabia que aqui na cidade de atual residência eu não conseguiria parir. Uma cidade pequena, com apenas cinco GOs, sendo que o meu é justamente o diretor do hospital…ou seja, sem chance de um parto natural. Com o passar do tempo, eu me via na iminência de uma segunda cesária, caso não fizesse alguma coisa. Ou eu teria um parto domiciliar com uma equipe de Rio Preto, ou viajaria para alguma cidade que tivesse hospital que preconiza humanização. Foi então que eu conheci a minha anja e doula Marília, e foi amor a primeira vista,rs. Eu sabia que ela estaria no meu parto, senti isso na primeira vez que a gente conversou. Mas eu ainda estava em dúvida se paria em casa ou no hospital. Sou uma pessoa que não tem problemas em ficar no hospital, a vida me deixou assim, lógico que eu não gosto de ficar internada, mas se for necessário eu fico. Conversei com algumas parteiras, conversei com muitas mulheres, pesquisei hospitais, participei de cursos e reuniões, debati com o parceiro…fiz o que achei necessário pra tomar minha decisão com segurança. Acabei optando por parir no hospital para que minha família ficasse tranquila…

Na 35º  semana, fiz um lindo trabalho de cura do Santo Daime, e como já havia combinado com a Marília, levei ela e sua família comigo… foi muito bonito e ali a gente se conectou. Começou naquele dia meu trabalho de parto.

Desse dia em diante nos víamos com bastante frequência, eu ia sempre na casa dela. As semanas foram se passando, e uns dias antes de entrar em trabalho de parto, numa sexta feira fizemos um chá de bênçãos na casa dela, com boas conversas e ótimas vibrações. Era uma noite de Lua nova, e na próxima terça viraria para a crescente…eu já estava de 41 semanas e sabia que estava chegando o grande dia. No domingo nos vimos novamente, ganhei de presente da Pri óleo para o trabalho de parto.

Na madrugada da terça feira, exatamente as três horas da manhã, acordei com uma dor diferente na lombar. Senti que meu trabalho de parto começou naquele instante, pois era uma dor intensa e diferente. Acordei o meu esposo e avisei sobre a dor, pedindo-lhe que me servisse uma dose do Santo Daime; ele prontamente me atendeu e comungou uma dose também. Então comecei a sentir o início das cólicas de TP, que vinham como uma onda, exatamente da maneira que as meninas me contaram e eu li em tantos relatos. Deitei no sofá da casa da minha mãe, e nesse momento meu esposo se ajoelhou ao meu lado. A gente se conectou como nunca antes, mais intensamente do que no momento da concepção do João. A gente se olhou com tanto amor, um amor daqueles que são entre as almas. Três almas somente existiam ali, a minha, a dele, e a do João. Foi um dos momentos mais lindos e intensos da minha vida. Meu esposo me abraçou e a gente ouviu os hinos do Santo Daime, enquanto conversamos e o TP evoluía…as horas passaram, e eu senti que era o TP mesmo quando fui ao banheiro e vi a pequena quantidade de muco que saiu de dentro de mim…já eram cinco horas da manhã e liguei pra Marília…fui ao encontro dela na casa de seu companheiro Marcelo, que me receberam com tanta alegria …a essa altura as dores que vinham com as contrações já eram fortes, e o dia começava a amanhecer. Era um dia lindo e atípico, não sei se era pelo trabalho de parto, ou pelo Daime , ou tudo isso junto , mas certamente a magia estava no ar. Com intervalos regulares eu comungava o Santo Daime e a nossa família/equipe também. Marília fazia as vocalizações e vivia cada contração comigo …parecia que ela sentia as dores também. Jayme, meu esposo saiu com Marcelo para comprar os ingredientes de fazer o famoso chá da Naoli, que ajuda no trabalho de parto. Quando ele voltou trazia consigo a Priscila, irmã em alma da Marília , uma bela de uma mulher empoderada e que trabalha com terapias e produtos naturais. Já sentia necessidade de bailar e andar, o Tp evoluía lindamente quando tomamos o chá… o céu numa manhã das mais lindas, Jayme trouxe uma árvore para comemorar a nova vida que chegava . Marília me massageava a cada contração e as dores se intensificavam, quando comecei a fazer limpeza dos intestinos . Nos intervalos das contrações eu ,Marília e Priscila bailamos, conversamos , rimos…fiz exercício numa faixa improvisada com uma rede, e as meninas se revezavam para me massagear…até o Raulzinho, filho da Pri parece que entendia o momento.

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Até que senti que as dores ficaram muito fortes, cogitamos parir ali mesmo, mas acabei indo pro hospital, que ficava a 84 km dali. Já era hora do almoço quando partimos. Jayme dirigiu rápido mas ao mesmo tempo tranquilo, e Marília foi me massageando na lombar o trajeto todo. A essa altura já tenho uma certa dificuldade para lembrar, pois já estava entrando na partolandia. Quando chegamos em Votuporanga, as dores já estavam quase insuportáveis, e Jayme fez minha admissão, enquanto eu e Marília aguardavamos. Chegou então a Fabiana, uma das doulas contratadas do hospital, e começou a ajudar na massagem. Fui examinada pela médica de plantão , e enquanto aguardava, já vocalizava em alto volume no corredor do hospital…lembro me de ver os médicos do hospital estranhando aquilo tudo, pois ainda não estavam acostumados com a humanização. Entrei na sala daquela médica e o que eu temia aconteceu, ela me pos deitada pra fazer o cardiotoco. Mesmo contrariada fiz o exame não sei pra que, porque não acusou nem contrações…mesmo assim estava com 4 dedos de dilatação, e ela me internou.

Primeira parte do desafio vencida, queria chegar lá em tp ativo.  Pois bem, eu já estava. Fui encaminha pro quarto de evolução de trabalho de parto. Era tão lindo, parecia quarto daquelas casas de parto inglesas. Já sentia muita dor e pedi pra ir pro chuveiro. A essa altura já sangrava bastante, e o tampão já havia se soltado. Quando entrei no chuveiro já urrava e gritava de dor. Eram aproximadamente 3 horas da tarde. Marília me recordava de fazer as vocalizações e continuava me massageando. Jayme atenciosamente me deu banho e me auxiliava a cada passo. Saí do chuveiro depois de uns 40 minutos, e fui pra cama.

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O médico plantonista veio e me fez um toque…seis centímetros…a dilatação evoluía…Então fui pra bola de pilates e fiz alguns exercícios, enquanto Marília e Fabiana alternvam as massagens. Quando o médico voltou eu já estava com oito cm de dilatação , e bem cansada pedi para deitar. Sangrava muito e doía muito também…ja estava completamente na partolândia quando o médico voltou e me fez o ultímo toque: dez cm de dilatação! Marília me abraçava e dizia que eu estava de parabéns !! Foi tão rápido ! Agora era o momento de mudar o foco e começar a fazer força. Não me serviriam mais as vocalizações, mas sim a respiração correta! Mas quem disse que eu entendia o que eles falavam ??? kkk Eu fazia só o que meu organismo permitia, enfim, eu gritava mesmo ! Aqueles gritos aliviavam a minha dor, que naquela altura já era insuportável. Marília dizia a todo instante o quanto eu era forte, e que eu conseguiria ! Fazia muuuita, mas muita força e o médico mandava fazer mais ! parecia que para ele não era o suficiente. Me pediram que fosse para a banqueta de parto , e naquele momento eu já havia me despido não só das minhas roupas, mas de todo ego e vaidade que o ser humano pode ter .

A dor transmuta, e naquelas proporções eu transcendia em dor. Pedia pelo amor de Deus pra voltar pra cama porque estava muito cansada, e na banqueta o tp estagnou…não me senti bem alí naquele momento…talvez tenha ido pra banqueta no momento errado . Quando voltei pra cama o clima já começou a ficar tenso , pois se aproximava as seis da tarde e o médico que estava me atendendo estava prestes a encerrar seu plantão … não sabíamos como poderia terminar meu parto sem aquele médico…ele também queria me ver parir ! Tanto que esperou isso acontecer. Ele percebendo que meu expulsivo talvez demorasse mais do que o esperado , além de descolar as membranas, me levou rapidamente para o centro cirúrgico …até agora ainda não sei porque, talvez pra resolver de vez aquele impasse…fomos correndo pro centro cirúrgico , e eu já não via mais nada…apenas fazia força…e mais força. Chegando no centro, deitada mesmo ouvia o médico dizendo faz força, e eu tentava fazer.  Jayme apoiava minha cabeça para me ajudar. Alí eu já queria analgesia, mas Marilia falava: Vai Nai, você consegue, está perto !!! Ouvia eles tão de longe, parecia que estavam em outra dimensão …ou talvez eu estava …e força ,muita força…ja não suportava mais, a dor era lancinante…foi quando senti queimar e eles diziam que tinha saído a cabeça,eu não conseguia tocar,não alcançava….mais uma força e senti como se tivesse morrido..um torpor e uma tontura, saí do meu corpo por um instante …quando voltei estava aquele lindo bebe no meu peito! Marília chorou , pois lavava sua alma de doula também ! Era enorme ! Muito grande e eu sabia que pesava mais de 4 kg pelo tamanho ! Todo cabeludo e perfeito, conheci meu segundo amor naquele momento ! e como era lindo , tão lindo e perfeito que eu não acreditava ! Jayme cortou o cordão do nosso bebe com muita emoção! Levaram para os primeiros procedimentos , ali mesmo, do meu lado , enquanto eu paria a placenta, que o médico segurou , e terminou de fazer os procedimentos. Deu alguns pontos, acredito que uns oito ao todo, e nos liberou pro quarto .Aguardamos um pouco sem a equipe até que pudéssemos sair dali. Estava com meu João em cima do peito e seu cheirinho de vernix era o melhor do mundo ! João nasceu aos 1º de outubro de 2014, as 18:40 hs , com 4kg e 200 gr e 52 cm , na Santa Casa de Votuporanga, de um parto natural hospitalar sem intervenções . Não tomou banho nas primeiras horas de vida, e mamou em mim na primeira hora de sua recente existência terrena !

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Só tenho gratidão no um coração por ter conseguido passar pela experiência com certeza mais transcendental de toda a minha vida! Só tenho gratidão por todos que participaram dessa passagem da minha vida, ao meu Mestre Império Juramidam, Padrinho Sebastião e todos os seres da Corte Celestial, ao meu esposo e companheiro Jayme , por todos os momentos, a minha doula Marília, que com certeza foi fundamental pra que eu tivesse o meu Parto Natural ,por todas as massagens e toda a força que me fez cavar dentro de mim, as meninas do Gaia, Talita e Nath , por todos os conselhos e informações, a todas as gestantes que conheci nesse lindo caminho da humanização, a todas as ativistas e blogueiras pelas informações e empoderamento; enfim, a todos que participaram dessa pequena epopeia que foi o meu parto !!!Não foi o parto perfeito , nem o parto que sonhei, mas esse foi o MEU parto ! Foi o meu melhor !

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Gente, vale a pena cada lágrima e cada kilometro ! Mulheres, vale a pena parir !!! ”

Relato gentilmente cedido por Naiara Escobar, gratidão querida ❤

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Um pensamento sobre “Relato de parto: Naiara Escobar Chaves e João Iaco de Carvalho

  1. Naaa minha linda, depois de termos nos falado sábado, seu relato veio pra completar toda a ideia de mulher forte que eu já tinha de você. Barreiras e mais barreiras é o que sempre encontraremos em nossos caminhos, então o jeito é superá-las. Te amo. Feliz pela nossa amizade!!!

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