Relato de Tessie Marcondes – Vbac

Meu nome é Tessie Marcondes, tenho 24 anos, dois filhos, três gestações e algumas historias para contar…

Minha primeira gestação aconteceu de forma acidental aos meus 16 anos, demorei em aceitar a ideia, mas acabei curtindo e comecei a me preparar.

Por alguns dias notei que acordava molhada , como se tivesse feito xixi na cama , e falei com o ginecologista que estava me acompanhando, ele havia dito que era normal, aliás, para ele tudo era normal, mas me pediu uma ultrassonografia, entre os exames de rotina, resolvi faze-la no mesmo dia.

Fui acompanhada pela minha sogra e cunhada na época, vibrei ao ver que existiam bracinhos, perninhas tudo perfeito, de repente algo errado estava acontecendo , algo que o médico não me falou, disse pra eu me levantar e limpar o gel, entregou meus exames a minha sogra e fui encaminhada ao hospital, assim que cheguei o medico que me atendeu , virou da forma mais estupida do mundo e falou , vamos para a curetagem, eu não entendia o que ele falava ai eu perguntei meio perdida ”o que é isso” e ele me disse – deite na maca e tire a parte de baixo o feto morreu ha uma semana, vamos fazer a raspagem! Eu chorava, eu queria sair correndo e aquele monstro enfiava o bico de pato como se eu fosse um animal, não conseguia acreditar no que estava acontecendo e lembro-me de repetir para algumas enfermeiras ” mas o coração dele pode voltar a bater de novo e ele vai crescer ‘‘. Foram cinco dias introduzindo comprimidos abortivos para que eu expelisse o feto ou abrisse o colo do meu útero ,nada adiantou , fiquei cinco dias só ingerindo líquidos, sem poder comer nada sólido por que teria que ir para a sala de cirurgia, foi cinco dias em que as enfermeiras me olhavam feio talvez achando que eu tivesse provocado o aborto, forma cinco dias em que eu quis morrer por estar no mesmo quarto que mulheres que acabaram de ter seus filhos, com seus bebes nos braços, felizes e eu sabendo que meu bebe não iria chegar. E foi feita uma curetagem.

Na segunda gestação eu tinha 18 anos, e pelo fato da dor de ter perdido o primeiro bebe, ela foi muito comemorada por mim e muito desejada.

Comecei a ter sangramentos e fui para no hospital, era época de copa e todos no hospital estavam bem ocupados assistindo os jogos, fiz uma ultrassonografia e o que apareceu foi que eu tinha um feto de cinco semanas, mas um saco gestacional correspondente a nove semanas, mais uma vez com ausência de batimentos cardíacos, meu mundo caiu e os médicos e enfermeiros preocupados com o resultado do jogo. Um único medico veio me explicar fazendo uma analogia nada coerente, mas que na época me pareceu caridosa ” sabe as galinhas (cômico se não fosse trágico) às vezes elas botam ovos (jura?) elas cuidam com carinho dos ovos, mas às vezes ele goram Tessie o seu ovinho gorou de novo ‘‘.

Fiquei desolada, ele marcou a curetagem para segunda feira de manhã, minha mãe foi me visitar e não sei se por intuição, pediu para que fosse realizada uma nova ultrassonografia, e o hospital se negou a fazer se não fosse paga uma quantia X, por ser final de semana, ela fez um escândalo e fez uma alta pedida, fomos para a santa casa, chegando lá ouvi a mesma coisa, que ficaria em jejum, mas que fariam pela manhã uma nova ultrassonografia, mas que não haveria muito jeito pelo que aparecia no ultimo ultrassom.

Passei a noite em claro, e pela manhã fui fazer a ultrassom, a minha surpresa foi ,quando vi o coração da minha filha pulsando , ela estava viva! Se eu tivesse ficado no outro hospital provavelmente teriam feito um aborto. Quanto ao parto foi uma cesárea induzida pela medica, mas no caso eu estava deprimida e muito ansiosa e tomando antidepressivos. Psicologicamente reconheço que não aguentaria um parto normal nas condições em que eu estava, embora tenha tido reações, como vomito e dores fortes de cabeça durante o parto e ficado totalmente isolada e triste na sala de recuperação tentando mexer a perna a todo custo para ir logo amamentar minha filha, que na minha cabeça estava aos berros morrendo de fome.

Minha filha foi diagnosticada desde o começo da gestação com um feto P.I.G. (Pequeno para idade gestacional) e nasceu com 2,050 g. e 43 cm. Muito pequena, mas espertinha, quanto ao aleitamento, confesso que fui muito bem auxiliada pela equipe medica do da santa casa, me ensinaram a técnica corretamente e eu não tive problemas.

Voltamos pra casa e por mais que eu tivesse passado por uma cesárea, não senti as dores comuns. Na época morava em são José do Rio preto o mês era  janeiro, estava muito calor e minha pequena teve hipoglicemia , não acordava para mamar ,nem tinha força pra isso liguei para o pediatra do hospital e ele me respondeu da seguinte forma ”Dê leite NAN” , fiquei inconformada e liguei para uma prima que havia tido bebê há pouco tempo e tinha bastante informações , ela me disse para leva-la a Unimed ,que tinha um trabalho chamado BE-A-BÁ BEBÊ ,que era gratuito e que poderia encontrar o auxilio de doulas que me ajudariam com o aleitamento. Fomos eu, minha mãe e irmã (também gestante na época) e fomos muito bem recebidas, me ensinaram como tirar leite sem uso de bombinha, a desempedrar os seios e com a ajuda de uma sonda infantil e um copinho me ajudaram a fazer minha filha beber o leite usando a sonda de canudo, vibramos com aquilo, achamos o máximo e a pequena voltou ao normal amamentei até os sete meses, parei por opção da minha filha.

A terceira gestação foi muito ativa e com bem mais informação no que diz respeito a parto e primeiros cuidados básicos com o bebe, tudo correu bem, fiz o pré-natal com o mesmo medico que fazia minhas ultrassonografias, coloquei a ideia do parto normal e ele me deixou a vontade para prosseguir se eu achasse a melhor escolha e ficamos assim, sem data marcada para cesariana,

No dia 24 de março, as exatas 07h00min da manhã comecei a sentir contrações, contrações mesmo, e fui para o hospital, chegando lá não tinha condições de andar, sentia meu filho saindo e bastante dor que pra mi eram as dores do parto e não apenas dores de contração, fui examinada, na tentativa de fazer exame de toque viram que não seria necessário, existiam 10 dedos de dilatação, sem rompimento de bolsa, achei que deixariam evoluir e que a bolsa estouraria sozinha porem, alegaram que o tecido da minha bolsa era muito rígido e que o bebe não conseguira estourar como não sabia que existia a possibilidade do bebe nascer envolvido com a bolsa e deixei que estourassem ela e as dores aumentaram. Deitaram-me na maca com as pernas nos apoios, eu estava morrendo de dor e gritava, neste momento ouvi a pérola ” Na hora de fazer você não gritou né?!” e eu rapidamente respondi ”E QUEM TE FALOU QUE NÃO GRITEI” a enfermeira se irritou e falou que eu não tinha educação, a dor me fez ignora-la, a anestesista chegou e foi a única que me tratou de forma gentil e disse que aplicaria a anestesia só para que eu não sentisse a cabeça do bebe passar, mas que as dores das contrações não cessariam, até que enfim alguém me explicara algo! A medica entrou, olhou, sem a minha autorização e sem que eu tivesse visto realizou uma episiotomia, e disse a enfermeira   ” – vou deixar ela evoluindo ( me lembrei dos Pokémons ), vou tomar um café, qualquer coisa me chame’‘.

A dor era grande e eu sentia a cabeça do meu filho já saindo, a enfermeira já muito irritada com o meu choro me disse ” – se esta doendo faz força bem’‘, tirei as pernas dos apoios, me sentei segurei nos mesmos e fiz força ela me olhou, eu fiz de novo e ela começou a gritar chamando pela medica dizendo que o bebe estava nascendo, ela correu e o meu pequeno veio ao mundo, graças acho que só a mim, que fiz meu parto confiando em mim mesmo, sem contar com a ajuda de quem estava lá exatamente pra isso.

Me sentei pedi meu filho na mesma hora e após um minuto olhando pra ele entreguei ao pediatra, e entreguei a roupa, em 10 ou 15 minutos me entregaram ele ainda no corredor e fomos para o quarto, me senti tão poderosa naquele momento, me senti grande, senti que poderia fazer qualquer coisa no mundo e me acho sim muito corajosa de ter passado por tudo isso e ter superado tudo tão bem.

Meu Raphinha e eu

 

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4 pensamentos sobre “Relato de Tessie Marcondes – Vbac

  1. Que relato incrível!
    Como pode essa banalização do parto?
    Como podem nos tratar como meros pedaços de carne?
    Parabéns, Tessie, pela coragem.

  2. Muito Obrigada Roberta !
    Realmente é uma banalização ,mas o incrível e assustador e que na época me pareceu algo ”normal” , por já ter ouvido vários relatos de mulheres que passaram por problemas parecidos …

  3. Me emocionei com o depoimento… Muito triste pensar que ainda tratam mulheres como carnes num açougue, que podem cortar como quiserem. SOMOS SERES HUMANOS e merecemos um PARTO HUMANO! Parabens, Tessie!

  4. Vou deixar vc evoluindo como no Pokemom…. kkkk ri muito!!! e a história de anestesia para não sentir o bebe passar ou para vc não sentir a episiotomia desnecessaria!!! lindo depoimento!!!

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