Jardim

Hoje em dia, comenta-se que somos da geração do “agora”, queremos bens não duráveis e que sirvam único e exclusivamente para o nosso prazer imediato. É o fast food em forma de vida.

Falamos que tal loja só faz aquilo para vender, mas mesmo assim, quando tem uma promoção, não agüentamos e vamos lá “checar”. Mesmo que tais itens da promoção não tenham a menor utilidade na nossa vida.É tudo pra amanhã. Só amanhã. E por ser algo grande, da sociedade onde vivemos, não se restringe aos bens materiais mais simples. Embarcamos na loucura e agimos assim uns com os outros.Fingimos não amar para não sofrer. E sofremos por não poder amar. E quando, finalmente nos abrimos e resolvemos amar, a pessoa em questão tem que ser rápida, queremos ser retribuidos na hora. Em seguida.Nos esquecemos de esperar. Daquele frio na barriga. Dos ciclos.

Também temos aqueles que querem entrar na moda de “salvar o mundo” e saem por aí dizendo que são ecologicamente corretos, que não usam sacolinhas de plástico do supermercado e que fazem tudo isso pensando no bem estar do meio ambiente, que nós, durante gerações, usamos e abusamos. Mas também querem ver resultados imediatos. E, se não têm uma convicção forte em relação ao que estão fazendo, se esquecem e voltam à rotina, que requer muito menos atenção e cuidado. Sabem tudo sobre como ser mais consciente, mas é muito cansativo.E volto a dizer, isso se reflete nos relacionamentos.É muito cansativo manter um relacionamento ecologicamente correto (se é que isso existe), que não polua a nossa vida e que preserve o nosso bem estar. Sempre requer atenção e cuidado.

Observando o meu jardim, (já comentado aqui/) pensei nesses dois assuntos. Ouvi através do silêncio da mãe Terra, que tudo precisa de tempo, cuidado, atenção e respeito. Sempre. Não só nos dias úteis.
Eu molho, cada planta, todo dia (aqui é bem seco e quente). Eu retiro cada folha seca. Eu vejo uma mini abobrinha se formar. Eu tento adivinhar o broto que vem de sair da terra. Eu fico maravilhada com a trepadeira que se enrrosca em tudo quanto é parte. Todo dia.Eu separo o lixo orgânico para fazer compostagem e nutrir a terra, como se fizesse comida pra ela. Eu pego um raminho do alecrim e coloco no peixe, que nutre todos da casa.

Percebi que, mesmo quem não é tão fast food, vai ao supermercado e compra um quilo de cenoura, e não tem a mínima noção do quão fast food isso é.
As cenouras que eu plantei na terra em Janeiro ainda estão lá, crescendo. E eu tenho que cuidar delas, se não murcham e morrem. Todo dia.
Olha o quanto é rápido comprar um cenoura e levar pra casa.

Vi que ser ecologicamente correto, pelo menos a meu ver, não tem nada a ver com salvar o planeta. Tem a ver com resgatarmos o tempo e o cuidado com nós mesmos.
Não adianta de nada parar de jogar lixo no rio se você não entende porquê isso é errado. Não adianta querer que tudo mude, de uma hora pra outra, só porque você resolveu ir de bike pro trabalho. Se você realmente sabe o que está fazendo e porque, vai saber esperar.Esperar para ver brotar aquilo que você plantou.

Queremos ver o mundo mudar, mas queremos que isso aconteça agora. E não vai acontecer. E se acontecer, provavelmente, você vai estar tão ocupado pensando no prazer que você pode ter em comprar “aquele” laptop, que nem vai se dar conta.

Ok,ok. E quem presta atenção? Eu sei que não sou a única a cultivar um jardim, mesmo que sejam jardins diferentes. Sei que tem pessoas, que enxergam detalhes na multidão.Eu sei, eu sinto.E que cada vez mais, redescobrem os ciclos naturais e entram em harmonia.

No jardim dos relacionamentos, nem sempre estamos dispostos a esperar por meses para ver a verdura amadurecer e dar frutos, preferimos ir ao supermercado. Preferimos algo que seja simples e eficiente. Quando acabar, é só ir ao supermercado de novo. Se tivéssemos que cultivar tudo, perderíamos muito tempo.
Ou não.
É tão bonito ver criar raízes, ver crescer, molhar e colher. Em relacionamentos, temos que cuidar do jardim do outro para que ele também cuide do nosso, sem esquecer do nosso próprio , e isso torna as coisas mais complexas. Mas se tivéssemos um pouco mais de tempo e cuidado, se cuidássemos uns dos outros como alguém que cuida de um jardim, veríamos belas flores nascerem e entenderíamos porque o tempo passa rápido hoje em dia. Veríamos os ciclos naturais surgirem em nós mesmos.Veríamos a beleza de ser quem somos.

PS-Acabei de tirar esta foto, ao lado do raminho de salsinha e do pé de abóbora que estão crescendo. Agora está bem escuro no jardim, eu coloquei a máquina na terra e deixei a exposição em 20 segundos (isso em fotografia é bastante, normalmente (com luz) não se usa nem meio segundo). E não é fácil ficar míseros 20 segundo na mesma posição.

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7 pensamentos sobre “Jardim

  1. “É tudo pra amanhã. Só amanhã.”

    Essa frase me lembrou do meu querido Álvaro de Campos. Em um dos poemas dele, que não me lembro agora o nome, ele diz muito sobre essa mania que temos der sempre no amanhã, ao invés de viver o hoje, o agora.

    Eo gostei tanto desse, que tive que lê-lo pra aquela minha amiga. Ela amou também, e até copiou um trecho pra ela. Adoro o que você escreve, pelo simples fato de você enxergar a verdadeira complexidade de tudo que nos envolve.

    Você é linda =]

    Um beijãooo!

  2. Vc é portuguesa?!? Não sei se é.. mas se tem algo q eu adoro em nos portugueses é q eles realmente gostam da natureza…

    por exemplo.. jah tive um bvlog sobre jardinagem.. e meus leitores eram tds de portugal…. e varios blogs interessantes.. sobre calopsita.. agapornis… coisas asim… são de portugal… aki no brasil eh deferente.. uma pena

  3. “Eu molho, cada planta, todo dia (aqui é bem seco e quente). Eu retiro cada folha seca. Eu vejo uma mini abobrinha se formar. Eu tento adivinhar o broto que vem de sair da terra. Eu fico maravilhada com a trepadeira que se enrrosca em tudo quanto é parte. Todo dia.Eu separo o lixo orgânico para fazer compostagem e nutrir a terra, como se fizesse comida pra ela. Eu pego um raminho do alecrim e coloco no peixe, que nutre todos da casa.”

    ME APAIXONEI!!!

  4. Bonito o post. Dá até uma paz, li devagarzinho. Deu uma pontinha de inveja também, eu não tenho tempo nem de ir ao supermercado e às vezes passo no shopping pra jantar. Logo logo mudarei de apto. e vou gastar menos tempo no trânsito, e sonho em ter vasinhos de manjericão, hortelã e alecrim. Se eu conseguir mantê-los vivos te mando uma foto. 🙂

  5. Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhh
    Primeiro, sumi alguns dias porque alguma energia do mal não quer que eu me conecte na internet, semana passada era o modem e essa semana foi o pc. É incrível! Mas fazer o que…
    Voltando(de novo)..

    Jhenifer… Que bom que gostou!! E eu adoro o Alvaro de Campos, gosto de acompanhar o seu pensamento e perceber que talvez eu não esteja tão louca. Afinal, o que tem de mais querer viver no momento que se apresenta? Acompanhar o ritmo da respiração da vida. A vida não é um sopro, rápido e certeiro…é uma longa respiração, que or inspira, ora expira.
    Você que é linda!! Meu ensaio prova isso!!
    Besos!!

  6. Rafael, não, não sou portuguesa, sou brasileira, nascida em Sampa…meu pai é francês, será q isso muda alguma coisa??

    Bom, o fato é: amo a natureza. Sempre a vi como um universo, com milhares de coisas a serem descobertas.

    Me mudei pro interior exatamente por sentir falta de natureza e tempo, São Paulo é mutcho loka pra mim, gosto de visitar, mas não moro nunca mais.
    Dezenove anos já foi o suficiente pra mim. Tenho amigas de lá que não viriam pro interior de jeito algum, como se aqui fosse um tédio. Mas eu não vejo assim.
    Aqui somos mais próximos das pessoas, encontramos amigos no centro, andamos às 3horas da madrugada sem medo de sermos assaltados e temos uma qualidade de vida enorme. A casa onde eu moro, por exemplo, é bem espaçosa e tranquila, com quintal e ainda por cima fica perto do centro, do jeito que eu sempre quis. Mas se eu fosse comprar a mesma casa em sp, nem em sonhos eu teria a grana.

    Fugi um pouco do assunto, mas, se você pensar bem, nem tanto…Aqui (e depois da gravidez) eu aprendi a me equilibrar com o tempo, com a minha natureza e com a natureza dos outros.

    Abraços! Volte sempre!

  7. Sica, que bom que eu consegui passar exatamente o que eu sinto quando cuido do meu jardim…Paz. É praticamente uma meditação.
    Que bom que você vai se mudar, e melhorar a sua vida(gastando menos tempo no trânsito)…morar em SP é foda, eu sei…
    Plante sim! Me mostra os raminhos, ok? Quero ver! A dica é, sol, agua e atenção! Quase um bichinho de estimação!!
    😉

    Beijao!

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