Ensaio sobre a paixão.

Normalmente temos a tendência em acreditar que existem coisas que são “importantes” e coisas que não são importantes, desde detalhes no nosso dia a dia, até um filme que você assiste sem querer na sessão da tarde. Para mim, tudo, praticamente tudo, me faz pensar. Tudo me parece ou muito louco, ou muito sem graça, mas olho mesmo assim. Até um filme como “Legalmente loira”.

Preciso confessar que não sou lá muito fã de filmes americanos, e nem de mulheres loiras, mas assisti mesmo assim. Até gostei, embora fosse um filme óbvio, por assim dizer.
Mas o que me chamou a atenção foi o final, com aquela frase (que também foi usada no começo do filme)“A lei é a razão livre da paixão” (Aristóteles). E também como ela foi usada pela personagem. Ela fala de paixão.

A paixão pelas coisas. É ela que impulsiona a vida, que quebra barreiras, que constrói casas e faz o barco seguir. É a correnteza do rio. É o que faz a gente viver.

Normalmente procuramos essa paixão, seja procurando uma amor, uma carreira ou uma simples idéia. E quando acontece? Muitas pessoas ficam com medo, descobrem mil e um impecílios e decidem deixar de lado, fingir que nada aconteceu e continuam suas vidas, até voltarem a procurar de novo.
Mas eu…eu me jogo. Não tenho medo do novo. Já tive medo de muita coisa nessa vida e aprendi que não se aprende nada tendo medo, só que ter medo não deixa a gente sair do lugar. Sabe, aquela tartaruguinha encolhida na sua casinha, lá no canto, porque tinha uma cachorro latindo pra ela? Então, acho que na vida é assim, você pode ser a tartaruguinha, mas não vai sair do lugar. Escolha ser outro animal e saia do lugar.

Apesar dessa vontade toda, nunca me encaixei em nenhuma profissão, sabe, sentir “aquela” paixão em relação ao trabalho. Não que eu não trabalhe com empenho, mas encontrar a sua paixão na àrea profissional é outra coisa, é fazer com tesão, sem pensar na grana e se sentindo a pessoa mais apaixonada do mundo. É quando você esquece que realmente está trabalhando e deixa de lado o nosso pensamento burguês e capitalista por um êxtase quase carnal.

Sabe, a Edith sentiu isso, ela vivia para cantar e tenho certeza que era o maior prazer da vida fazê-lo.

Tenho uma amiga, a mãe Mei ( 🙂 ) que me contou esses dias, que também tem essa sensação com suas criações em costura.
A Tati me fala de suas maquiagens e de sua paixão pela vida que a circunda, seja nos textos, na família, ou na caótica São Paulo.
Ouço minha amiga Lucélia falar de sua pequena Yara, que ainda nem nasceu, com toda a loucura que uma grávida tem.
Percebo minha mãe, com seus olhos brilhando, me falar de tecidos, idéias e roteiros de filmes que vamos fazer. Ela, que estava procurando um curso, uma idéia, uma luz, encontrou no cinema o inesperado. Se tocou da loucura e foi fazer pós em cinema. Amei.

E meu marido, o Macaco, por oito anos trabalhou como barman mas sempre teve paixão pelo cinema. Sempre comprava uma filmadora e sempre tinha um maldito que a roubava (foram 4), na última, eu já estava com ele e ele tinha acabado de pagar a 2ª prestação (eram 12).
E ele desistiu?
Quando a Sophia estava para nascer, meu pai deu uma filmadora para a gente, parecida com as que o Macaco já teve. Ele começou a mexer, fuçar, brincar, fazer imagens. Mas até então, só em casa, edições engraçadas no nosso PC e sem ter contato nenhum na área.
Até que um dia, quando eu estava no grupo de mães da Unimed, escutei alguém falando de filmagens, e fui perguntar. Era uma mãe que tinha uma produtora com o marido, e que estava divulgando um workshop de cinema e tv, o “Eu na TV”. Peguei o endereço e telefone e na semana seguinte estávamos lá, fazendo a matrícula dele.
O horário era complicado (por causa do trabalho dele no clube) e a grana estava curta, mas, com um chequinho em três vezes ali e uma troca de turno aqui, ele conseguiu fazer o workshop.
Ele entrou em contato com a área, pessoas e técnicas.
Dois meses depois saiu do clube e hoje está em Ribeirão Preto trabalhando na gravação de um comercial. Já filmou seu próprio curta (calma, falta a edição, mas ele sai), participou de outros três e fez um monte de comercial. Agora, ele é o mais feliz dos assistentes de fotografia do estado. E sempre volta louco de pedra, com mil e uma idéias na cabeça. Apaixonado.

Sabe, quando as pessoas ao nosso redor mudam, se apaixonam, é como se fosse uma epidemia, vc acaba pegando também. E dessa vez não é dengue.

A minha paixão é em relação aos símbolos. Tanto os femininos, quanto os culturais.
Adoro o oculto, histórico e diferente. Gosto de histórias, de imagens subversivas, temas contraditórios e belos. Vejo a beleza em tudo. E estou aprendendo a mostrar o que vejo, através da fotografia.
Sempre amei fotografia, mas nunca botei fé, acho que exatamente por achar muito relaxante e envolvente perpetuar aquilo que vejo. Sei lá.
Mas, de repente, parece que acordei, abri meus olhos e percebi que aquilo que eu sempre busquei estava ali, no foco da máquina, na expressão das pessoas ao verem a foto, na sensação de conseguir fazer-me entender pelos outros.

Acredito na paixão pela vida, seja sendo fotógrafa, mãe, mulher, esposa, amante, puta ou simplesmente uma loira de filme americano.

Muitíssimo prazer orgástico, fotógrafa Nathalie Gingold.

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7 pensamentos sobre “Ensaio sobre a paixão.

  1. Simples e necessário como respirar… ensãio sobre a paixão.
    Somos amigas pois nos encontramos em um estado de paixão elo belo, pelo feio, elo sem graça…. mas principalmente pela vida da paixão…
    è mto bonito Nath.

  2. Sabe, quando li o que escreveu sobre a paixão pela profissão, que nos leva a trabalhar não pensando na questão financeira [pensamento que toma conta dos jovens de hoje que pretendem, com o trabalho, nada mais que enriquecer-se], mas atingir uma meta, enxerguei-me.

    Quando estava no último ano do ensino médio, encontrava-me em dúvida entre três cursos: Filosofia, História e Letras. A necessidade de trabalhar, dentre outros fatores, fez-me optar pelo de Letras e hoje tenho a plena certeza de que eu não teria o mínimo de felicidade que pode-se ter se não trabalhasse com isso. Ainda sou estudante, mas o pouco contato que tive com o outro como aluno que foi um único aluno particular e o pessoal lá da faculdade mesmo que tem dificuldade com poesia e literatura – sou monitora em Teoria da poesia e Literatura – despertaram-me múltiplas sensação.

    A cada dia tenho mais paixão pelo mundo das Letras e o desejo de ser professora solidifica-se mais e mais. Descobrir o poder que a linguagem carrega, o sentido dos paradoxos, a importancia da poesia para a vida… tudo isso me fascina. E é esse fascínio que quero tentar fazer com que as pessoas vejam também. É uma sede infinita.

    Nathalie, amei o ensaio!

    Abraços!

  3. “Mas eu…eu me jogo. Não tenho medo do novo.”
    Essa frase é minha também!
    Não consigo fazer nada sem paixão; já fiz, acho que pra corresponder com as expectativas dos outros, mas tudo que durou na minha vida e tudo que não me arrependo foram as decisões tomadas pela paixão. Ela me move. Que bom que vc é assim também, é pela paixão que a vida vale a pena.

  4. E viva a PAIXÃO!
    E perceber que compartilho ela com vcs, minhas queridas, só me faz ter certeza de que, sim, vivemos por ela e que é assim que se vive de verdade.

    Gritos de orgasmo para vocês também.

  5. nath….. eu sempre me movi pela paixão!!!! a paixão me fez casar com um homem 26 anos mais velho, a paixão me fez largar emprego fixo e certo para me tornar maquiadora!!!! (tudo bem que eu tive muita sorte, mas me empenho muito deus sabe!!!), a paixão me faz ouvir comentários desagrdáveis como: “mas você não é registrada?, não trabalha todos os dias???” (um saco!!! mas eu nem ligo!), sou muito feliz!!!! não tenho medo da vida, e se tiver sei fingir muito bem, e assim o medo fica do tamanho de um grão de arroz (pequeniniiiinho). assim como você, procuro prestar atenção em tudo o que vejo, e guardo aquilo que for bom pra mim, o que não for deleto!!!! sou uma apaixonada!!!! gosto muito do que você escreve, e fiquei muito feliz por ser citada no texto…ui!!!!
    beijos tati.

  6. Eu vi uma japonesa que lançou o maior livro de fotografia do mundo. Entrou para o guiness book. Achei muita megalomania. Mas ok. Cada qual com suas manias.
    To amando suas fotos no flickr.

    Beijos,

  7. Mei:
    Hahahahah…muito megalomaniaca!!!!
    Quando estou com a máquina (as vezes ela viaja com o Macaco), eu fico fazendo minhas experiências! Espera só até chegar “aquela” máquina…estou de olho numa semi-profissional, para entçao, eu trabalhar de fato, na área!

    Mil beijos!

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