Um sem número de coisas…

Como posso saber que tudo na vida é relativo e ao mesmo tempo ter certeza que nada é por acaso? Sei, sei, começar com uma frase assim não é legal, mas é exatamente isso que passa pela minha cabeça depois dos últimos 4 dias.

Na última quarta-feira, aqui em Rio Preto foi feriado (aniversário da cidade) e na sexta também, mas aí foi nacional e católico, e não sou católica (e desligada do mundo) portanto não sei qual foi. Só sei dos coelinhos que invadiram os supermercados.
Bom, isso tudo se transformou em um mega feriado prolongado e na gravação das primeiras cenas de um curta metragem chamado “Sebastiana da Silva”, dirigido por Pedro Lucínio e com fotografia do Leando Marcondelli. O filme fala da violência contra a mulher na área rural e se em conto de Odilon Fehlauer. A história gira em torno de uma mãe, que depois de anos sofrendo violencia do marido, resolve mudar sua vida. Dêem uma olhadinha no blog do filme, que tá tudo explicadinho: http://www.sebastianadasilva.blogspot.com/

Aqui eu só vou contar um pouco da minha visão pra lá de subjetiva das coisas, dos dias que eu estava lá tirando minha modestas fotos e absorvendo tudo. Na verdade nem era para eu estar lá, mas meu marido estava na produção e minha mãe também e adivinha quem iria levá-los à pequena Nova Macaúbas (25km de Rio Preto)? Aproveitei e peguei minha máquina e saí fotografando tudo que dava. E essa foi a menor das coisas, conheci pessoas que já se tornaram amigas, observei o stress (já habitual) de um set de gravação e aprendi a ter um olhar mais aguçado.

No começo, eu simplesmente estava olhando para a preparação do lugar, comprimentando pessoas novas, ajudando a tirar alguns curiosos do lugar e dando um “apoio moral”. Depois eu me aproximei, vi algumas cenas, percebi a tensão da cidade em relação à nós, principalmente através das crianças, que são as primeiras a mostrarem o que se sente (e não se fala), afinal, são crianças. E quando criança grita, é lá do fundo.
Sabe, minha mãe me falou algo que me fez refletir em relação à cidade. Nós somos os intrusos, não adianta pensar o contrário, invadimos o espaço deles e não demos muitas satisfações, muitas vezes agimos como se ele fossem obrigados a nos receber de braços abertos e eu acredito que esse não deveria ser o caminho. Entendo que, por ser um filme nacional, e de cunho social, o mesmo trará maior visibilidade à cidade e até a dramas existentes no lugar, me ele não vêem assim. São simples mesmo, no sentido literal da palavra. Ouvi umas senhoras comentando que achavam que estava sendo rodado um filme pornô, afinal, ninguém deixava eles verem as cenas internas. Por mim, poderíamos ter feito um integração com as pessoas, mostrando um pouco de como se faz cinema, e não simplesmente alugar um lugar afastado e arranjar figurantes do local. Sempre me coloco no lugar do outro.

Achei incrível a transformação de uma simples sala num belo cenário, tudo através de iluminação e de uma filmadora. Parecia-me uma lugar totalmente onírico. De repente o lugar era iluminado, os ângulos traçados, o atores em seus lugares e a imagem se tornava perfeita. O diretor de fotografia é um amigão do Macaco (meu marido) e já é de casa, chamo ele de biscate a torto e a direita, e não é que ele faz tudo ficar perfeito? Mas brincadeiras à parte, ele é um ótimo profissional e além de tudo é nosso amigo. Parabéns.

Por lá, conheci o Hunfrey que me explicou muitas coisas da fotografia, obscuras até então. Aprendi a mexer (de verdade) na minha querida Zenit e descobri que tudo aquilo que eu sempre procurei, estava aqui, na minha pele, nos meus olhos, na minha frente. Vislumbrei um mundo novo ao ouvir falar de fotografia, semiótica e realidade. A luz, que antes já me fascinava, agora me mostra o caminho. Nunca nada fez tanto sentido. Meu caminho são meus olhos. Os símbolos, que antes eu procurava na psicologia, se mostraram nas imagens da minha máquina. E nunca tive tanta certeza. E você nem sabe, né Hunfrey? O quanto me iluminou. Depois eu te conto. E para a Flávia também.

Conheci o Rafael (Eu-O Rafa), que deve ter sido um irmão na última encarnação, conheçe as viagens na maionese que eu faço diariamente e não tem o mínimo pudor em acreditar nelas. Me contou de um curta sobre duendes em um manicômio, que por mais que pareça engraçado, não é. Só falta a edição e eu quero ver. Ele fala devagar porque as idéias são muitas. Ele luta kung-fu com a Sophia e ela adora. E ele também tem alguns filmes no youtube, dê um olhadinha:   [youtube http://www.youtube.com/watch?v=Vu0ajOVpYjI&color1=0x3a3a3a&color2=0x999999&hl=en%5D
Esse video foi escolhido como revelação do youtube, e foi feito quadro a quadro com uma máquina simples de fotografia digital. Esse é O-Rafa.

Conheci a Raquel, que faz a protagonista do curta, uma atriz excepcional. Ela é calma, apesar de ter dormido três dias seguidos dentro do carro, ela é modesta, apesar de ser atriz e ela é uma daquelas pessoas que não se estressa com o estresse alheio, entende? Aquela que trabalha por horas a fio sem perder o humor. Amei. E quando eu estiver com minha máquina profissional nas mãos, farei um ensaio com você.

Preciso dizer o quanto admiro meu marido e minha mãe?
O Macaco nem falava comigo direito de tanta coisa que ele estava fazendo, como assistente de fotografia ele teve bastante trabalho, mas sem um momento de cansaço, é o que ele gosta, é o que ele sempre quis, e eu me orgulho dele, de mais da conta. Ele não se importa de, muitas vezes, fazer o trabalho “braçal”, de começar do começo mesmo, sem aquela falsa modéstia de diretor de cinema. Ele está ali só aprendendo, absorvendo e aprendendo mil e uma palavras novas como fresnel, travelling, grua… Ama e respira cinema, nem que seja ajustando o fresnel ou carregando a câmera num puta colete (o qual eu realmente não sei o nome, mas que dá aquela visão do personagem). Nas outras vezes que a equipe foi à Nova Macaúbas, ele fez um pequeno making-of, que está aqui: 


Minha mãe nunca havia trabalhado figurino em cinema, só em teatro, mas quando surgiu a oportunidade se jogou de cabeça. Se tornou a figurinista Fátima Salomeh. Pesquisou, desenhou, pintou e bordou (literalmente). Fez até uma apresentação do layout do figurino, tá aqui no youtube também:  [youtube http://www.youtube.com/watch?v=M7KynkfrWJo&color1=0x3a3a3a&color2=0x999999&hl=en%5D
Teve seus momentos de loucura durante as gravações, mas amou. Aliás, todo mundo amou o trabalho dela. Foi até chamada para dar aulas do tema numa faculdade. E como diria a plaquinha “Eu já sabia!”.

Conheci outras pessoas também, pude presenciar o diretor Pedrão em ação e um sem números de cositas más.
Mesmo tendo ido lá só para levar minha mãe e meu marido.

Adoro cinema, pessoas, sensações, loucuras momentâneas e permanentes, luz e arte. Amo fotografia. E adorei a oportunidade de acompanhar tudo isso em quatro dias de gravação do curta “Sebastiana da Silva”, mais uma vez Pedro, obrigada pelo espaço (por que eu entrei de gaiato) e à todos, parabéns. E quem disse que não se faz cinema no Brasil? Hein Pedro?

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2 pensamentos sobre “Um sem número de coisas…

  1. Nathalie!
    Foi muito bom conhecê-la nas gravações do curta! Assim como foi muito bom conhecer a Sophia, minha adiversária de kunk-fu! Hehe, parece que fomos irmãos numa outra vida mesmo… como diz o Monkey Johnys: nós “viajamos na maionese” (ou “travelling on maionese”)!
    Ah, fala aí foi muito bom conhecer essa cidade que é Nova Macaúbas, muito que nela vimos, poucos olhos repousaram.
    Espero que trabalhemos em muitos outros filmes esperimentando diversas sinestesias!
    PErcebi que este filme agoçou o olhar! E, agora que sei que tira maravilhosas fotos, espero ter umas dicas com você, adoro fotografar, também!
    Hmm, eu não sabia que você tinha esse blog… achei muito bom! Você escreve muito bem… posso me tornar um frequentador assíduo de seus posts???

    Manda um abração para o Macaco, o cara é fabulosamente D+, piramos na batatinha quase o tempo todo!!! E também fala “Homa” (“como vai você” em Cantonês) para a Sophia (Filosofia, dos olhos que tudo vêem) e prepara ela para nossas próximas lutas!!! E não se esqueça de um outro abraço na nossa figurinista explêndia!!!

    Abraços, do Sir Rafael de Nowakosk.

  2. Puta que pariu. Fui grossa, mas sincera.
    Lindo, lindo, lindo. Estou apaixonada. Nao vejo a hora de ver o filme. E suas fotos. Ontem assisti o video da Sophia com o Joel e ele me perguntou se voce era fotografa. CLARO QUE SIM.
    Estou transbordando de orgulho. E defelicidade por essas pessoas que amo tanto!
    Beijos quase primeveris do leste-europeu.

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