E assim os pais foram cambaleando para casa, derramando lágrimas sobre o seus belos trajes. A filha permaneceu sem se casar durante três anos e tinha o temperamento como das primeiras maçãs doces da primavera.No dia em que o Diabo veio apanhá-la, ela se banhou, pôs um vestido branco e ficou parada num círculo de giz que ela mesma traçara à sua volta. Quando o Diabo estendeu a mão para agarrá-la, uma força invisível o lançou do outro lado do quintal.
-Ela não pode mais se banhar – berrou ele. -Ou não vou conseguir me aproximar dela. -Os pais ficaram apavorados e algumas semanas passaram em que ela não se banhou até que seu cabelo ficou emaranhado; suas unhas, negras; sua pele, acinzentada; suas roupas encardidas e duras de sujeira.Então, com a donzela cada dia mais parecida com um animal, surgiu mais uma vez o Diabo. No entanto, a menina chorou, e suas lágrimas escorreram pelas mãos e pelo braços. Agora, suas mãos e seus braços estavam alvíssimos e limpos. O Diabo ficou furioso.-Cortem-lhe fora as mãos, do contrário não vou poder me aproximar dela.
-Você quer que eu corte as mãos da minha própria filha? – perguntou o pai, horrorizado.
Tudo aqui irá morrer – berrou o Diabo. -Você, sua mulher e todos os campos até onde sua vista alcace.O pai ficou tão apavorado que obedeceu e, pedindo perdão à filha, começou a afiar seu machado de gume de prata. A filha conformou-se.
-Sou sua filha. Faça o que deve fazer.E foi o que ele fez.No final ninguém poderia dizer quem gritou mais alto, a filha ou o pai. Terminou, assim, a vida da menina da forma que ela conhecia.Quando o Diabo voltou, a menina havia chorado tanto que os tocos que restavam dos seus braços estavam novamente limpos, e o Diabo foi mais uma vez atirado para o outro lado do quintal quando tentou agarrá-la.Lançando maldições que provocaram pequenos incêndios na floresta, ele desapareceu para sempre, pois havia perdido todo o direito a ela.Fim da segunda parte.
[Conto "A donzela sem mãos", extraído do livro " Mulheres que correm com os lobos", de Clara Pinkola Estés]
Sabem, eu percebi que, ao poucos, reconhecemos detalhes importantes da história, como se fosse a nossa própria. Agora, que estou relendo a história, consigo perceber coisas que antes só eram percebidas pelo meu incosciente (porque ele “pega” tudo) e tudo faz muito sentido, pareçe até que eu já conhecia a história.
A minha própria.
A mutilação
Nesta segunda parte da história, nos deparamos com o momento em que o Diabo tenta levar a donzela, mas, em razão do seu choro, não consegue. Ela fica suja e com a aparência próxima a um animal, e chora. Ocorre a mutilação. E a donzela passa para um outro mundo. E o Diabo vai embora, sem ela.
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Existe algo de simbólico na primeira parte, o dos três anos. Em vários mitos, três é um número forte e mágico, e sempre obedece um ciclo em contos de fadas:“a primeira tentativa não é certo; a segunda também não; a terceira vez, ah, agora algo vai acontecer. Quando chegamos à pontência de qualquer coisa, ao momento transformador, os átomos saltam, e onde havia a lassidão agora existe o movimento” (trecho do livro)
Depois da espera, ela se prepara.
Ela nem sabe o porquê do ritual, das roupas brancas, do círculo, como que hipnotizada, ela faz isso tudo. Ela sabe que algo vai destruí-la, e nesse momento algo nos puxa para os antigos clãs de bruxas.
Algo nos chama e nos mostra a escuridão como aliada.
Ela se permite ter contato com essa parte incosciente por saber que não será a mesma depois do que vai acontecer, ela vai morrer e nada mais importa, nada de físico a impede de ouvir as vozes antigas, da antiga religião das mulheres.
Ficamos mais fortes e a morte já não parece mais tão assustadora, sentimos como se pudéssemos passar por ela.
Já senti isso em diversas situações. Algo toma conta do nosso olhar e vemos que temos que seguir. Mesmo sem saber pra onde e como, continuamos seguindo. Tem até uma música da Loreena Mackennit que fala assim: “hummm…ride on, through the night , ride on (siga, pela noite, siga)” que eu sempre evoco nesses momentos.
“E aqui estamos nós, vestidas e com o máximo de proteção possível, à espera do nosso destino. A donzela chora, no entanto, chora nas próprias mãos” (trecho do livro)
E qual mulher não sabe o poder do choro, a força que transborda, grita e se materializa em forma de água.
O choro é mágico, tanto que muitas vezes é citado como ingrediente de poções,ele tem uma função parecida com o da água benta, principalmente as lágrimas infantis.
O choro afasta a dor. E nos da alívio.
As vezes não aguentamos mais chorar, choramos como se fossemos um rio sem margem, transbordando para tudo quanto é lado, tentamos segurar, mas em vão, a alma é quem está chorando, e só ela sabe quando parar. Só ela sabe a quantidade que faz a ferida curar.
Quando o Diabo diz para ela parar de se banhar, para que consiga se aproximar dela, o efeito surtido é contrário. Ela se torna mais forte a medida que se aproxima da terra e da grande mãe, a mulher suja de lama, suja de fuligem, é amada pela Mulher Selvagem.
A natureza selvagem subjacente se manifesta e a deixa mais poderosa, é normalmente aquele momento em que deixamos de lado nossa natureza “vaidosa” e passamos por uma provação, aprendemos a ver além da nossa beleza.
“Depois, com o machado de prata, suas mãos são cortadas. Esse trecho é complexo, pois ele representa a idéia de que a remoção das mãos psiquicas pode ser ritual.(…)O predador da psique conhece tudo a respeito do profundo mistério associado às mãos. Em muitas partes do mundo, uma forma extremamente patológica de demonstrar desumanidade está em seqüestrar e decepar as mãos da vítima: mutilar a função de sentir, ver e curar do ser humano” (trecho do livro)
E ela é impedida, quando suas mãos são cortadas, de se auto-curar, de se consolar, mas ela continua a chorar, e o Diabo, não por compaixão ou por pena, se afasta, sente como se sua força fosse anulada pelas lágrimas, em razão da pureza das mesmas.
Sentimos que, quando mais nada nos resta no horizonte a não ser as possibilidades mais áridas, mais sombrias e impenitentes, são as lágrimas que nos impedem de morrer, e de nor tornarmos cinzas.
E nossa donzela vai para outro nível, continua descendo e nós vamos juntas, mesmo sentindo que não temos proteção, que tudo está perdido e escuro, sabemos da nossa força, sabemos que podemos jogar o Diabo para o outro lado do jardim.
Essa época, que parece que perdemos tudo, Jung usava um termo de Heráclito – enantiodromia – que significa refluir.
Quando chegamos neste momento de nossa jornada, pareçe que demos um passo pra trás, mas de fato, seria mais apropriado dizer que demos um passo para baixo, para o nosso inconsciente, regredimos à nossa natureza primordial e sentimos que nunca mais seremos a mesma.
Nossa maneira habitual de ver o mundo, mudou e mesmo que não tenhamos mais nossas mãos, “temos nosso pés, que nos liga à terra, temos nosso ventre e nosso seios que intuem o caminho, exatamente como a exótica e enigmática deusa do ventre, Baubo, que representa a profunda natureza instintiva das mulheres…e que também não tem mãos”(trecho do livro).
Vamos adiante, descer cada vez mais em nós mesmas.




Nossa, Nath, eu, realmente, estou arrepiada. Esse livro parece ser ótimo, e com suas observações sensacionistas, tudo fica ainda mais claro, puro e verdadeiro.
No momento em que você diz “Em vários mitos, três é um número forte e mágico”, eu fiquei atenciosa, e com uma largo sorriso na face. Isso, porque o número 3, para a poesia, também é de grande importância. Significa perfeição, completude, amarração! Fernando Pessoa representa isso perfeitamente bem.
Adorei o post, amore.
Bisous =)
Puxa, não sabia do número três em relação à poesia!! Que lindo..
O três tem muito mais significado, mtos mitos, temos a santissima trindade, as três moiras (da mitologia, que teciam o tecido dos mortais), no tarot é o número em que algo de transformador acontece…e deve ter muito mais coisas das quais não estou me lembrando agora.
E sim, o livro é ótimo, lindo, forte e atrevido, como nós…acho q somos lobas, querida.
Sabe, a lua cheia sempre me arrepiou…talvez seja o uivo contido.
Bjos