Ontem, no final do dia, eu estava tranqüila me trocando para dormir. Assim, como naqueles dias que você está com vontade de esticar as pernas e dormir feliz. Heis que, num momento observador da minha parte, olhei para a sola do meu tênis. E tinha tanta sujeirinha, tanto detalhe, tanto de mim ali… naquela sola. E meu dia [assim como meus cadarços] se desenrolou frente a mim naquele instante. Tchau soninho.
Pensei nos lugares que fui, na movimentação de meus pés e na direção que eu estava tomando quando cada passo era dado.
E pensei, é essa a parte do tênis, [ou sapato, tanto faz] que nos sustenta, literalmente falando. O tênis inteiro não é nada se não fosse a sua sola. E o que seria de nós, se não tivéssemos rumo a tomar, através dos passos que damos, com mesma sola? Ela é fundamental, mas normalmente, as pessoas só olham para a sola quando entra uma pedra ou quando pisa nas coisas e tais coisas quebram.
As vezes pisamos em cocô no meio da avenida paulista, e queremos achar, num momento de raiva sem sentido (afinal, o cocô não se jogou debaixo dos seus pés, você que pisou nele), que foi pura sorte, embora a raiva não passe, você continua andando.
Quando novos, temos medo de pisar em lugares sujos e estranhos, com pedras, lama e cheios de ameaças ao solado e a lateral, que estão tão branquinhos. Mas assim que passamos pela primeira mancha e descobrimos que ela não sai tão fácil, andamos com mais velocidade e menos preocupação, como se o não tivéssemos limites.
Mas cansamos. Lavamos ele. Enxugamos ele. E temos a esperança de que tudo voltou ao início, com tudo claro e limpo. Mas a mancha, aquela primeira, continua lá.
Já me peguei olhando para os sapatos de pessoas que acabei de conhecer, não para ver a marca, mas para ter uma idéia de como a pessoa lida com as coisas materiais.
Já percebeu? As vezes você vê uma pessoa elegante com um sapato simples, e isso não interfere na elegância dele. Mas, quando alguém tenta fingir o que é, o sapato acusa, e os passos não são firmes.
Muito lustre ou brilho, eu encontro em pessoas detalhistas e apegadas. Nem vou comentar quando me contam que têm mais que trinta pares de sapato em casa. Pra mim é simples exagero e apego, mais uma vez.
As vezes, encontramos uma pessoa que tem dinheiro usando um sapato antigo e com a forma do próprio pé. Ou então, pessoas pobres com um sapato que parece que acabou de sair da fábrica. E o que você pensa?
Eu gosto de sapatos confortáveis. Pode ser maravilhoso, mas se não for confortável, não uso e dou para alguém. Acho perfeito quando encontro um que, além de confortável, ainda é estiloso.
Muitas vezes, me pego olhando para o tênis, porque acredito que cada sujeirinha grudada nos cadarços nos contam uma história.
Quantas histórias sua sola tem para contar?




Nath, são atitudes como essas que diferem as pessoas, e não a raça, a cor, a condição social ou sei lá mais o que. Porque são pelas atitudes que o processo do conhecer concretiza-se. Porque são pelas suas atitudes, que percebo o quanto você dá atenção a coisas que não merecem atenção de quase ninguém; e isso comprova que nem todos vivem nessa automatização alienante que a maioria vive.
É a mais pura verdade o que disse sobre pessoas de boa condição financeira usar calçados que já estão, de tanto uso, com a marca dos pés. Isso me lembrou de um episódio da minha adolescência. Estava eu num domingão bacana, perdida entre as tantas opções que a TV nos dá; eis que resolvi assistir um programa da Xuxa, que passava aos domingos, enquanto comia algo. Foi bem no momento da participação do Vini, e a Xuxa, super discreta, disse: “Cara, só te vejo com esse all star, tu não muda de tênis, não?”, e ele respondeu: “não, só quando rasgar mesmo. Ele é mais confortável, por isso vou a todos lugares, inclusive a shows, com ele.” Achei ótima a resposta. Talvez seja uma forma, inconsciente, de deixar o material calçado participar de todos os momentos da vida dele, já que [não sabemos] pode ter sido ele o único companheiro de todas as horas [as boas e as difíceis].
Já os pobres, digo aqueles da classe média baixa, que come abobrinha e arrota caviar, passa necessida, se preciso, só para manter as aparências. Isso é tão ridículo, tão vil, tão mesquinho.
“As vezes pisamos em cocô no meio da avenida paulista, e queremos achar, num momento de raiva sem sentido (afinal, o cocô não se jogou debaixo dos seus pés, você que pisou nele), que foi pura sorte, embora a raiva não passe, você continua andando. Quando novos, temos medo de pisar em lugares sujos e estranhos, com pedras, lama e cheios de ameaças ao solado e a lateral, que estão tão branquinhos. Mas assim que passamos pela primeira mancha e descobrimos que ela não sai tão fácil, andamos com mais velocidade e menos preocupação, como se o não tivéssemos limites.
Mas cansamos. Lavamos ele. Enxugamos ele. E temos a esperança de que tudo voltou ao início, com tudo claro e limpo. Mas a mancha, aquela primeira, continua lá.”
Essa metáfora que construiu foi perfeita! Dá pra associarmos as manchas do calçado com os tombos da nossa vida; com as pedras no meio do caminho, como disse Drummond. Acredito que só desencanamos e levamos a vida de forma mais light, quando nos sujamos muito.
Confesso que antes nunca havia pensado, de forma tão complexa, nas minhas solas. Mas é sempre muito bem vindo beliscões que despertem as nossas percepções e que nos conduza a pensamentos novos e certeiros.
Muito bom! Baci!
Ah, me perdoe por comentários assim, tão longos. Mas isso é bom, é indício do quão instigante são seus textos.
Beijos!
Ah não, não perdoou tamanha ousadia da sua parte, de me escrever um comentário tão grande! Ah…pára com isso,né?
Amei, amei, amei o seu comentário…e a metáfora foi sendo construída sem querer, quando percebi…plof, ela era verdadeira.
E eu também nunca havia prestado atenção às solas do meu tênis (por sinal, um all star tb, preto, de cano alto, que uso quase sempre), mas esses dias, como descrito, olhei e me dei conta da loucura.
Mil beijos….tb adoro os seus posts.
Oi!!!
eu passei pra conhecer seu blog e agradecer pela visita…
beijocasss
Vixe Fran, eu adorei o seu blog, precisa agradecer não
Bjus!